segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Otro lado de la Montaña


[outubro 2012]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Segundo os Olhos de Miramar



Do dia 20 para 21 de dezembro de 2012 ocorreram fatos estranhos. Alguns abriram o coração, outros cortaram os pulsos, pulsaram o inerte, expulsaram demônios, lavaram as mãos, apagaram pecados, pagaram pecados, choraram sobre a alegria derramada, revisaram o saldo, saldaram dívidas, subiram a aposta, quebraram a banca, viveram como nunca, como se não houvesse amanhã , mas houve. Mais uma vez houve quem negasse – por três vezes ou mais- os fatos e os feitos e houve quem escondesse os pulsos, negasse as dívidas, rezasse por uma amnésia epidêmica, que mantesse a ordem, matasse a memória, salvasse o futuro. 
(...)

De qual mundo estamos falando? Talvez detenha a resposta um pássaro antigo que repete velhas palavras que poderiam salvar o mundo, se não tivéssemos matado os índios que o ensinaram a falar. Ele nos fala dos sabores e saberes de cada fruto, vida e cultura por nós exterminada, do silêncio dos mortos de Auschwitz e Ramala, onde repousa o idioma da tolerância que um dia aprenderemos a falar, dos muros – os caídos e erguidos, que nos dividem e não impedem invasões, de tudo que sabemos e negamos – três vezes ou mais- em nome da ordem do mundo que cada um inventou, como se não fôssemos um todo e de todos o mundo, que não nos pertence e ao qual pertencemos. Não creio que esquecendo o mundo dos nossos filhos seja melhor, o amanhã esteja assegurado. 
(...)

Talvez haja tempo de lavar o mar, o ar, os rios, cuidar da vida, viver sem medo. Creio que existirão junhos e outros meses e anos melhores. Eles não virão de profecias, não cairão dos céus, virão de nós, os sobreviventes do fim do mundo.

 [Maurício Raupp Martins é produtor e apresentador do Programa Cantos de Luta e Esperança, na RádioCom]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Bem no fundo



Bem no fundo
    no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
    a gente gostaria
de ver nossos problemas
    resolvidos por decreto

    a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
    é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo

    extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
    lá pra trás não há nada,
e nada mais

    mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
    e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
    e outros pequenos probleminhas.

[Paulo Leminski]

domingo, 16 de dezembro de 2012

eu durmo comigo



eu durmo comigo/ de bruços deitada eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado.

Angélica Freitas, do livro Um útero é do tamanho de um punho.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Inventário do Desamor



Deixo contigo meu sangue
meus livros e minhas horas.

E a dor cansada na insônia
contra o lençol das demoras.

Deixo a paz que eu encontrei
mas me fugiu entre os dedos.

E a chave surda e sem uso
da gaveta dos meus medos.

Deixo perdido um poema
e não por esquecimento:

mas pra que um dia eu te encontre
na leve pauta dos ventos.

Deixo contigo meu ventre
meus olhos, minhas entranhas.

E com mãos nuas, reflito:
- Perde mais quem hoje ganha?

Deixo contigo meus beijos
meu suor, meu desabrigo.

Deixo roupas, documentos.
De meu, nada irá comigo.

Deixo a sombra, de teimosa.
Deixo as fotos, deixo a casa.

Do poço mais infinito
só levo a alma, presa e rasa.

[Jaime Vaz Brasil]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

sábado, 24 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Para que o capitalismo não destrua a poesia: FLIA dá espaço à arte popular

Organizada pela RádioCom, a segunda edição da Feira do Livro Independente e Autônoma aconteceu no feriado de Finados

 Foto: Sotaque Coletivo

O ensolarado feriado de 2 de novembro, teve, em seu segundo ano, mais uma edição da Feira do Livro Independente e Autônoma (FLIA), em Pelotas. O movimento não é novo no mundo. Já começou há muito tempo, em Buenos Aires, com a multicultural "Feria Del Libro Independiente y Alternativa", em um estacionamento abandonado próximo à faculdade de Ciências Sociais, da capital portenha. De lá, se espalhou por diversas partes do América Latina. Pelotas, por exemplo, é a primeira cidade do Brasil que recebeu a Feira. A primeira edição, no ano passado, reuniu escritores independentes, artistas, produtores culturais e ativistas, na zona portuária de Pelotas, no Quadrado. Neste ano, o movimento tomou uma força ainda maior: contou com mais expositores, lançamentos de livros de escritores locais, apresentações artísticas, conversas sobre obras, tenda infantil com contação de histórias, espaço livre artesanal e uma forte participação do público.

Alguns perguntam se a FLIA é uma extensão da Feira do Livro tradicional, já existente em Pelotas. Claramente, não é.  A FLIA é um livre movimento de valorização e circulação da arte, independente da Feira do Livro existir, mesmo que, grande parte de seus expositores, não está na agenda da feira tradicional. Seu espaço e idealização transcende iniciativas do poder público, em parceria com organizações privadas. Se tivéssemos ainda mais feiras, a FLIA continuaria existindo. Ela surge da necessidade de exposição da diversidade de produções que têm surgido, fortemente na cidade e caracteriza-se como algo inovador, com identidade própria. Um dos maiores exemplos, é o caráter livre de como se organiza. Não há uma equipe de trabalho separada, se não a mesma que produz e idealiza o evento. O cenário retrata: No decorrer do dia, começam a chegar expositores e curiosos. Alguns, sentindo-se livre para trazer seus escritos, - sejam eles em ofício, blocos, livros, etc, usam o espaço. Os materiais vão aumentando conforme o andar da carruagem e do dia. O resultado é exposição do livro de uma escritora pelotense que está no Oriente Médio, parcerias com editoras independentes de Porto Alegre, artesanato vindo do Chile, lançamento de livros de escritores locais, trocas e vendas de livros, espaço da alimentação, teatro de rua e shows ao anoitecer. Por esse caráter diverso e informal é que a FLIA, como o próprio nome relata, é alternativa e autônoma. Dá a autonomia ao público conhecer a vitrine do que tem sido produzido aqui. Autonomia ao amante da arte dialogar com o escritor e com outros amantes da literatura sobre o prestigioso ato de ler e escrever. Autonomia ao músico apresentar o seu trabalho. Autonomia ao público ter mais opções de cultura. Autonomia de não ser dependente de uma programação lado A. A FLIA é também um lado B de Pelotas. Não é a toa que foi para o Quadrado: diversas regiões da cidade necessitam da arte mais próxima, necessitam que a arte, de fato, seja descentralizada. E as Doquinhas, são um exemplo.

O mercado e a compulsão da venda, sem ter sensibilidade com o universo artístico, tem destruido, aos poucos, a oportunidade de jovens e velhos escritores anônimos, terem um contato maior com o público, sedento por arte. Tem destruido o que ainda nos resta de mais precioso: a percepção às coisas mínimas e necessárias, que a literatura, a música, ou qualquer manifestação artistica, proporciona à vida humana. A FLIA é autonoma e independente no contato com as pessoas, fazendo-as serem protagonistas de sua programação, com o microfone aberto, com o palco disponível e com as mesas prontas para receber manuscritos, pois, assim como na escrita, não se pode ter limites na imaginação, em iniciativas como uma Feira participativa, popular e plural.

Que a burocracia e a selvageria do mercado que nos impõem dia após dia, não destrua e não corrompa a poesia, simples e viva, que ainda permanece nos nossos escritores, artistas, no nosso público, na nossa cidade. Em nós.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Quadrado recebe Feira do Livro Independente no feriado

Por Diego Queijo (DP)

Em pleno Dia de Finados, uma opção para quem quer ficar inserido na literatura local e aproveitar o feriado: na sexta-feira (2), das 10 às 22h, ocorre no Quadrado (início da rua Alberto Rosa) a 2ª Feira do Livro Independente e Autônoma de Pelotas, a Flia.

"Um livro não é um livro, mas sim um homem que fala através do livro". A frase é do novelista e jornalista italiano Alberto Moravia, e trata o livro como a voz do autor. Reunir pessoas que falam através de livros e das mais variadas formas de expressão é um dos objetivos da organização da Feira de Pelotas. Somando artistas, sejam eles literatos, músicos, artesãos, artistas plásticos, visuais, cênicos, cozinheiros e afins, de acordo com duas das organizadoras do evento, Eliane Rubim e Ediane Oliveira, o objetivo é proporcionar voz aos escritores e artistas independentes. “Queremos tirar o escritor de seu ponto isolado e lançar a possibilidade de união mostrando alternativas para materializar o livro. É um encontro para fortalecer a cena literária da cidade”, afirma Eliane.

 De acordo com Ediane, o espaço aberto pela feira é um dos grandes pontos a serem destacados pelo evento. "A Feira oferece esse espaço aos autores como uma vitrine do que Pelotas tem produzido atualmente", disse.



Origem portenha

A Flia ocorre todos os anos em diversas cidades do mundo. Eliane é uma das idealizadoras do evento e diz que encontrou inspiração na capital da Argentina. A Feira teve início em Buenos Aires, com a Feria Del Libro Independiente y Alternativa, em um estacionamento abandonado próximo à faculdade de Ciências Sociais da capital portenha. 

A Flia de Buenos Aires já chegou a sua 21ª edição e se espalhou por outras cidades argentinas como Córdoba, Rosário e Mar del Plata. Sem contar países como Chile e Paraguai, além do Uruguai, que realiza sua primeira Flia em Montevidéu nos dias 17 e 18 de novembro.



Programação literária
 
Pela manhã serão realizadas oficinas como de restauração de livros e de confecção artesanal de livros. À tarde, apresentações e rodas de conversa. “Mas teremos dança, teatro, culinária artesanal, música e contos de histórias para crianças”, afirma Ediane.

Entre os escritores com presença confirmada no evento estão Lory Ricardo, Marília Kosby, Diogo Souza Madeira, Alexandre Nunes, Julia Porto, Lucas Moraes, Márcio Ezequiel e Jorge Braga. Para mais informações e programação completa, clique aqui e acesse o site.



Serviço

O quê: Flia - Feira do Livro Independente e Autônoma

Quando: sexta-feira (2/11/2012), das 10h às 22h

Onde: Quadrado (início da rua Alberto Rosa)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

110 anos de Drummond



Destruição

 Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Um se beija no outro, refletido. Dois amantes que são? Dois inimigos.  Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se, e como o que era mundo volve a nada.  Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma que os passeia de leve, assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho.  E eles quedam mordidos para sempre. deixaram de existir, mas o existido continua a doer eternamente.

II Edição: SARAU MANIFESTA NA CASA 171


Depois da primeira edição do POESIA MANIFESTA, realizado no último dia 10, a RádioCom convida a tod@s para o SARAU MANIFESTA, que se realizará hoje (31), na Casa 171.

A atividade abre a II Edição da FLIA (Feira do Livro Independente e Autônoma).




Com:
Pedro Morales
Males Hostil
Tropa FDG
Vale y los piqueteros

Performances
Poesia
Fotografia
Rango vegano y vegetariano
Microfone aberto
Livros
Anarquia

e muito mais!

Colaboração a partir de 2 reais, em benefício da FLIA (Feira do Livro Independente e Autonôma).
Participe!

sábado, 27 de outubro de 2012

Poesia no Bar vai a Rio Grande: blues e poesia


Neste domingo (28), a literatura tomará conta da noite rio-grandina: o bar e restaurante Monaghan’s recebe a 13ª edição do Poesia no Bar


Nascido em Pelotas em agosto de 2010 com o intuito de levar um pouco de literatura aos bares da cidade através da distribuição de marca-páginas com poemas de novos poetas da região, o Núcleo Poesia no Bar vem se expandindo em eventos pela região sul e chega, pela primeira vez, em Rio Grande.

O Poesia no Bar teve doze edições, mas só a partir da sexta, em Junho de 2011, passou a contar também com edições especiais com recital dos poetas participantes do projeto, além da tradicional distribuição dos poemas em marca-páginas.

O projeto esteve inserido em várias manifestações artístico-culturais como evento oficial: Cult Bazar, Cult Festival, 2° Festival Manuel Padeiro de Cinema e Animação, 10° Aniversário da Rádio Com 104,5 FM, 3ª Feira Binacional do Livro de Jaguarão/RS, Semana do Audiovisual de Jaguarão/RS – SEDA 2012 e Sarau Poesia Manifesta.

Entre os poetas, músicos e artistas gráficos que participarão da edição rio-grandina do evento, são nomes confirmados: [de Rio Grande] Alisson Affonso, Andréia Pires, Adriana Dias Bueno, Everton Cosme, Giliard Barbosa, Jairo Lopes, Ju Blasina, Nich Lucena, Paulo Olmedo, Rody Cáceres e Volmar Camargo Jr. [de Pelotas] Álvaro Barcelos, Daniel Moreira, Ediane Oliveira, Jorge Braga, Vinícius Kusma e Valder Valeirão.

Além da distribuição de marcadores com poemas e ilustrações, do sarau poético e da apresentação musical, a 13ª edição terá ainda o lançamento do livro “O BALCÃO DASARTES IMPURAS” (editora Multifoco, RJ) – o livro traz trinta e cinco poemas publicados no blog que dá nome ao título, produzidos ao longo de treze meses, quatro cidades e dois estados da vida do poeta gaúcho Volmar Camargo Junior.

Com entrada franca, o evento é aberto ao público. Após a participação dos poetas convidados, o sarau se torna livre para declamação de poemas próprios por parte de quem lá estiver presente – todos estão convidados a prestigiar e participar do Poesia no Bar!


-> Video do POESIA NO BAR, nos 10 anos da RádioCom, em Junho de 2011:

Poesia no Bar from Rodrigo Elste on Vimeo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Agora.


O contrabaixista Ron Carter dizia que sua função num quinteto de jazz (e ele foi o contrabaixista do quinteto de Miles Davis) era tocar sempre a nota que impedisse os outros músicos do grupo de tocar a nota que eles imaginavam que iam tocar, obrigando-os sempre a encontrar uma nota inesperada. Penso sempre nessa frase, obsessivamente, mesmo sem ser músico, e acho que é porque no fundo a vida, tal como a vivo, é o meu Ron Carter, sempre fazendo soar a nota que me impede de tocar a nota que eu achava que ia tocar, e me obrigando a encontrar outra, à queima-roupa, numa fração de zepto-segundo. Às vezes desafino feio, falho, perco o tom e o rebolado, e os amigos me vão recolher no lixo, entre trapos de lágrimas, gatos e espinhas de peixe, e outras vezes mando tão bem que o pequeno público do enfumaçado e noturno 'pub dos corações solitários' se levanta, dança na pista e entre as mesas, esboça um sorriso entre as lanterninhas japonesas dos cigarros e os anjos boxeadores que existem em cada copo de gim e ao final aplaude e grita, olhos brilhando: 'mais um!'. E eu toco um novo solo feito das lembranças de ter sido recolhido no lixo, entre trapos de lágrimas, gatos e espinhas de peixe. Disse o Paul Valéry que um leão é feito de carneiros devorados, eu sou um carneiro feito de leões ferozes ludibriados.
[Carlito Azevedo]

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

'Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.'


Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo. [Drummond]













sábado, 6 de outubro de 2012

POESIA MANIFESTA: 1ª edição



Poesia: Autores locais e Sarau livre
Música: Juliano Guerra
Performance: Andros
Exposição: Camila Hein
Poesia No Bar: Marca-páginas com poesias ao público
Apresentação: Ediane Oliveira e Junelise Martino

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

(des)espero



eu sei, se há,
são resquícios
não manda nada:
jardim de calçada
os simples caminhos
ilineares
foram tuas escolhas
eu sei

não me revelarei:
com dor, fecho a porta
meu nome desfaz
com labareda que resiste
não olha, não diz
continua vão

em ti apaga
a vela acesa ainda
com o céu escuro

não há trovões
não há relâmpagos
dormência é aí
e aqui dentro
pulsante no espelho
de um corpo esquecido

nem sangue
nem fé
nem revolta
nem volta
te trazem
de volta

nem espaços
deste espaço
colocam meu passo
ao passo
do teu passo
num mesmo espaço

eu sei.

nem rastejos, nem flores
hemisférios e poemas
te trazem a mim
e eu passo a bola
para o fim

sem a palavra
que nos une
sem o verbo
que nos chama
sem essa saudade
que eu ainda
sinto

sem idas
sem voltas
sentindo
o sentido
sem ti.

O 20 de Setembro


Na manhã desta quarta-feira (19), véspera das comemorações da chamada "Revolução Farroupilha", o historiador Tau Golin conversou com os ouvintes da RádioCom e traçou um panorama histórico deste acontecimento. Golin é professor da Universidade Federal de Passo Fundo (UPF) e autor do livro Rio Grande em debate: conservadorismo e mudança, que aborda questões sobre a história do Rio Grande do Sul.

domingo, 16 de setembro de 2012

Que nunca sepas ni cómo, ni cuándo.


Que el maquillaje no apague tu risa,
Que el equipaje no lastre tus alas,
Que el calendario no venga con prisas,
Que el diccionario detenga las balas,
Que las persianas corrijan la aurora,
Que gane el quiero la guerra del puedo,
Que los que esperan no cuenten las horas,
Que los que matan se mueran de miedo.
Que el fin del mundo te pille bailando,
Que el escenario me tiña las canas,
Que nunca sepas ni cómo, ni cuándo,
Ni ciento volando, ni ayer ni mañana

Que el corazón no se pase de moda,
Que los otoños te doren la piel,
Que cada noche sea noche de bodas,
Que no se ponga la luna de miel.

Que todas las noches sean noches de boda,
Que todas las lunas sean lunas de miel.

Que las verdades no tengan complejos,
Que las mentiras parezcan mentira,
Que no te den la razón los espejos,
Que te aproveche mirar lo que miras.
Que no se ocupe de ti el desamparo,
Que cada cena sea tu última cena,
Que ser valiente no salga tan caro,
Que ser cobarde no valga la pena.
Que no te compren por menos de nada,
Que no te vendan amor sin espinas,
Que no te duerman con cuentos de hadas,
Que no te cierren el bar de la esquina.

Que el corazón no se pase de moda,
Que los otoños te doren la piel,
Que cada noche sea noche de bodas,
Que no se ponga la luna de miel.

Que todas las noches sean noches de boda,
Que todas las lunas sean lunas de miel.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Curva Da Cintura: Que me continua


Se ando cheio, me dilua.
Se estou no meio, conclua.
Se perco o freio, me obstrua.
Se me arruinei, reconstrua.
Se sou um fruto, me roa.
Se viro um muro, me rua.
Se te machuco, me doa.
Se sou futuro, evolua.

Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua.

Se eu não crescer, me destrua.
Se eu obcecar, me distraia.
Se me ganhar, distribua.
Se me perder, subtraia.
Se estou no céu, me abençõe.
Se eu sou seu, me possua.
Se dou um duro, me sue.
Se sou tão puro, polua.

Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua.

Se sou voraz, me sacie.
Se for demais, atenue.
Se fico atrás, assobie.
Se estou em paz, tumultue.
Se eu agonio, me alivie.
Se me entedio, me dê rua.
Se te bloqueio, desvie.
Se dou recheio, usufrua.

Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua.


domingo, 9 de setembro de 2012

Mundo grande


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

[Drummond]

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Eduardo Freda é arte daqui


As mãos que hoje estão livres, que retumbam distante o som inconfundível do pampa gaúcho, são as mesmas que há séculos foram retiradas de seus lares em algum lugar de uma África distante e que construíram a suor e muito sangue as riquezas e o imaginário que nunca lhes pertenceram. Histórias de dor e amor fazem parte do disco gravado ao vivo por Dudu Freda, contando cenas nascidas na África com desenrolar em Pelotas, nos tempos das Charqueadas e nos dias atuais.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio


É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.

Voz e vento apenas

Das coisas do lá fora


E sozinha supor

Que se estivesses dentro


Essa voz importante e esse vento

Das ramagens de fora



Eu jamais ouviria. Atento

Meu ouvido escutaria

O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.

Porque é melhor sonhar tua rudeza

E sorver reconquista a cada noite

Pensando: amanhã sim, virá.

E o tempo de amanhã será riqueza:

A cada noite, eu Ariana, preparando

Aroma e corpo. E o verso a cada noite

Se fazendo de tua sábia ausência.



Porque tu sabes que é de poesia

Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,

Que a teu lado te amando,

Antes de ser mulher sou inteira poeta.

E que o teu corpo existe porque o meu

Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,

É que move o grande corpo teu



Ainda que tu me vejas extrema e suplicante

Quando amanhece e me dizes adeus.



A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.

E transmuta em palavra

Paixão e veemência



E minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite à Casa que só existo

Para sorver a água da tua boca.



A minha Casa, Dionísio, te lamenta

E manda que eu te pergunte assim de frente:

À uma mulher que canta ensolarada

E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?


Porque te amo

Deverias ao menos te deter

Um instante



Como as pessoas fazem

Quando vêem a petúnia

Ou a chuva de granizo.



Porque te amo

Deveria a teus olhos parecer

Uma outra Ariana



Não essa que te louva



A cada verso

Mas outra


Reverso de sua própria placidez

Escudo e crueldade a cada gesto.



Porque te amo, Dionísio,

é que me faço assim tão simultânea

Madura, adolescente



E por isso talvez

Te aborreças de mim.



Hilda Hilst

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Mais um Sarau

Sarau BPP lembra Garcia Lorca
Poeta espanhol  é o autor em destaque no projeto da Bibliotheca Pública Pelotense

 Um dos nomes mais conhecidos da literatura de língua espanhola , Garcia Lorca ( 1898 -1936) é o autor em destaque na XXIV edição do Sarau Poético-Musical da Bibliotheca Pública Pelotense (BPP) , no próximo dia 28. A homenagem ao poeta nascido na Andaluzia ocorre no mês que marca os 76 anos de seu fuzilamento( 19 de agosto) pelas milicias franquistas em Granada, no início da Guerra Civil espanhola ( 1936 - 1939). A poesia e o teatro compõem o centro de sua obra , que se completa com títulos em prosa, composições musicais e desenhos. A fala sobre Federico Garcia Lorca - a cargo de Pedro Bittencourt Jr - abre a edição de agosto do Sarau BPP que, na sequência, apresenta blocos de música ao vivo e poesia recitada de autores locais. Evento com entrada franca e inicio às 19:30 horas. No salão térreo da Bibliotheca.
 
 AUTORES-POETAS CONVIDADOS:

Arlete Dalarosa
Ediane Oliveira
Fernanda Souza
Francine Costa Amaral

AUTOR EM DESTAQUE
Federico Garcia Lorca ( 1898:-1936)

CONVERSA SOBRE O AUTOR DESTACADO:
Pedro Bittencourt Jr


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Novas Narrativas: Comunicação e Cultura em debate Cone-Sul


Participo como integrante da RádioCom, da mesa “Novas Narrativas: Quando foi que separamos ética de estética?" na manhã desta sexta (17), na programação do Congresso Fora do Eixo Cone Sul, que se iniciou na última quarta-feira, em Porto Alegre.

Buscarei trazer uma elaboração de narrativas e estratégias de guerrilha multimídia para a mobilização on-line, além de realizar um levantamento de midialivristas, apresentar projetos estrégicos, mapear veículos de comunicação no Rio Grande do Sul e ajudar na organização do Conselho de Comunicação Cone-Sul. Serão apresentados também a formação e as principais atividades e projetos culturais da RádioCom 104,5 FM, que há 11 anos existe em Pelotas como veículo alternativo de comunicação que fortalece a diversidade cultural e dá voz aos movimentos sociais.


Participarão da mesa:

EDIANE OLIVEIRA
Jornalista na RadioCom. Pós-graduada em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Pelotas e co-fundadora da Maria Bonita Comunicação. Já atuou em projetos de rádio-escolas e integra o Núcleo Poesia no Bar.

ALEXANDRE HAUBRICH
Jornalista, editor do blog Jornalismo B. Foi repórter do Jornal Já e da Revista O Dilúvio. Escreve quinzenalmente no Diário Liberdade.

LINO BOCCHINI
Jornalista, redator-chefe da revista TRIP e editor do blog Falha de S.Paulo. Diretor da #PósTV e apresentador do programa Desculpe a Nossa Falha.

FERNANDA QUEVEDO
Gestora da Mídia Livre Fora do Eixo na regional Sul. Já desenvolveu projetos sócioculturais e de midiativismo em periferias e atua com mídias sociais na Casa FdE Porto Alegre e regional sul.

LEANDRO VOVCHUK
Ator e músico, estudante em Gestão de Arte e Cultura e atual coordenador de Comunicação da CUCA (Centro Universitario de Cultura y Arte) de sua universidade, em Buenos Aires.

*
O Congresso Conse Sul reúne em Porto Alegre, de 15 a 19 de agosto, coletivos, midialivristas, artistas, formadores de opinião, iniciativas e gestores culturais. As relações promovidas pelo Encontro vão gerar uma grande coalisão de “redes em rede”, através de debates, reuniões livres, grupos de trabalhos, imersões, plenárias e feira de trocas, percurso cultural e o Festival Cultura de Rede.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

mas quero que fique a semente.



espero que a noite inclemente
te pegue de frente
que tu sintas dor.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

Wislawa Zymborska

E apressa o dia de amanhã.



terça-feira, 7 de agosto de 2012

RádioCom nos Bairros


O Núcleo Popular de Jornalismo esteve presente no Bairro Pestano.



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O estouro



demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém.

risos ou
lágrimas

odiosos 
amantes

estranhos com faces como
cabeças de
tachinhas

exércitos correndo através
de ruas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens.

ou um velho num quarto barato
com uma fotografia de M. Monroe.

há tamanha solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.

pessoas tão cansadas
mutiladas
tanto pelo amor como pelo desamor.

as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras
cara a cara.

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.

estamos com medo.

nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores.

eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios.

ou do terror de uma pessoa 
sofrendo sozinha
num lugar qualquer

intocada
incomunicável

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.

suponho que nunca serão.
não peço para que sejam.

mas às vezes eu penso sobre
isso.

as contas dos rosários balançarão
as nuvens nublarão
e o assassino degolará a criança
como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete.

demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém

mais odiosos que amantes.

as pessoas não são boas umas com as outras.
talvez se elas fossem
nossas mortes não seriam tão tristes.

enquanto isso eu olho para as jovens garotas
talos
flores do acaso.

tem que haver um caminho.

com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda
não pensamos.

quem colocou este cérebro dentro de mim?

ele chora
ele demanda
ele diz que há uma chance.

ele não dirá
"não". 

Charles Bukowski  

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

domingo, 29 de julho de 2012

Meu nome é nuvem.


Pó, poeira, movimento
O meu nome é nuvem
Ventania, flor de vento.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Fauzi Arap



Eu vou te contar... que você não me conhece, e eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve. A sedução me escraviza a você. Ao fim de tudo, você permanece comigo mas preso ao que eu criei. E não a mim.
E quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa.Você não tem um nome, eu tenho. Você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções.

Mas a mentira da aparência do que eu sou, é a mentira da aparência do que você é. Porque eu, eu não sou o meu nome, e você não é ninguém. O jogo perigoso que eu pratico aqui, ele busca chegar ao limite possível de aproximação, através da aceitação da distância e do reconhecimento dela.

Entre eu e você existe a noticia que nos separa. Eu me dispo da noticia e a minha nudez parada te denuncia e te espelha. Eu me delato. Tu me relatas. Eu nos acuso e confesso por nós.

Assim me livro das palavras, com as quais você me veste.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Tenho vinte e cinco anos de sonho.


Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 76.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:

- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 76.

E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.

[À palo seco - Belchior]

sábado, 7 de julho de 2012

Tão down: Pelotas e Cazuza


eu bato contra o muro
duro
esfolo minhas mãos no muro
tento longe o salto e pulo
dou nas paredes do muro
duro
não desisto de forçá-lo
hei de encontrar um furo
por onde ultrapassá-lo.
[Oliveira Silveira]

O que minha cidade tem em comum com o Cazuza é o 7 de Julho. Pelotas nasce há 200 anos atrás. Cazuza morre há 22 anos. Não sei se é apenas essa semelhança. Diante de um momento tão importante, onde a movimentação social parece se renovar e voltar seus olhos ainda mais para a força que se tem nas ruas e na voz daqueles que não se calam... me faz pensar que aquela ousadia que se tinha no Cazuza, aquela irreverência a tanta coisa, aquela paixão descontrolada, a flor da pele - um desespero gostoso e selvagem... - aquele grito, simplesmente o grito; também tem se estampado  em cada bandeira levantada, rosto, brado: sentimentos humanos colocados para fora.

Minha cidade vive um novo momento. Sou testemunha e sujeito neste processo de chama se acendendo. Em uma tradição tão enrustida e tão velha, as ruas estão tomando pessoas, independente de chuva, perseguição e repressão. Pelotas 200 Anos Para Quem? tem mostrado o quanto - quando as forças se unem, as coisas podem acontecer. Criação do Comitê da Memória, Verdade e Justiça coloca Pelotas ainda mais em referência nas apurações aos violentos crimes na ditadura militar.

Novo reitor de uma Universidade Pública eleito democraticamente, após 20 anos, muda muita coisa em um orçamento que consegue ser superior ao da Prefeitura. Coletivos de diversos temas transversais disseminando suas pautas e formando a reflexão e transformação. Mídias alternativas tomando força e começando a finalmente disputar este processo que outrora era tão hegemônico. Festival de Inverno chegando com tudo e colocando Pelotas como uma das capitais de um evento grande multiartístico. 
Hmmmm.. eu ando tão down.
Down de gana, de ternura. Talvez exagerada como Cazuza? Creio que não. 

 Foto: Paulo Granada

Hoje mais uma vez houve um  ato unificado da UFPel , com o apoio de outros movimentos sociais da cidade, em prol da melhoria da educação no País. Gravação do Jornal do Almoço Estadual ao vivo da Princesa do Sul no largo do Mercado... e as pautas da educação - e da cidade - em bandeiras, gritos e megafones do outro lado da cabine da imprensa em plena chuva. O ato mais uma vez foi pacífico, entretanto, infelizmente, a BM não está preparada para isso, e acabou enxergando professores, alunos e técnico-administrativos como "bandidos". A pergunta que não quer calar é: por que os policiais estavam tão armados em uma manifestação pela educação pública? Para que tanta imposição do medo?

Resultado: “cadeia”  por algumas horas para alguns companheiros. Isto é democracia? Temos uma democracia violenta.  Não vamos nos calar.

Essa perseguição é tão estupidamente estranha, mas esperada.
Não sabe o que é ser down.
Nós estamos tão down.

Pelotas comemora seus 200 anos. Parabéns, nossa Satolep.
Por te amá-la, amanhã vamos novamente às ruas.

Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Procura-se


Tive contato com a poesia de Martim César há alguns anos. Mais recentemente, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais de sua obra, através da edição do Poesia No Bar, que se deslocou a Jaguarão.
Publico aqui uma poesia deste autor. Uma busca incansável pela poesia viva ou morta. Respirá-la talvez seja o que esteja nos faltando cada vez mais. Procura-se a poesia, procura-se.


Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um amor adolescente,
Ingênuo. Descobrindo e descobrindo-se.
Como o primeiro olhar de cumplicidade
E o primeiro beijo. E a primeira lágrima de dor.
(E não existe outro amor mais delirante).

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia contra a opressão,
Poesia como um rio sem represas,
Poesia libertária, abrindo grades,
Poesia devolvendo o céu aos pássaros,
Poesia sem preço, nem limites,
Poesia como lenitivo, como bálsamo,
Poesia contra as feridas deste tempo,
Poesia contra quem nos fere,
Poesia para quem nos fere,
Poesia necessária, poesia imprescindível
Como a água que bebemos.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia de Neruda, eterna como as geleiras da sua terra,
Alta como a cordilheira que moldou o seu canto inigualável,
Livre como o condor, senhor dos ares ameríndios.
Poesia com gosto de vinho, poesia cor de sangue,
Poesia como o mar, belo e temível. Temivelmente belo.
Poesia de Drummond, cortante como um punhal,
Feita do ferro das suas minas não tão gerais,
Poesia denunciadora como a Rosa de Hiroshima,
Poesia gritando feito uma menina do Vietnam,
Nua. Queimada de Napalm, gritando...
Ardendo em chamas dentro de nós.
 
Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um relâmpago na noite escura,
Como o tímpano adivinhando o trovão
Que ainda não veio, mas virá.
Poesia como uma flor em meio ao charco,
Como as gotas de orvalho sobre a relva,
Como uma carta de amor no bolso de um soldado
Que foi morto por outro soldado que
também foi morto,
Ambos assassinados por alguém que
nunca foi à guerra.
Poesia épica como a música de Serrat
Onde Dom Quixote ainda enfrenta os cataventos,
E García Lorca ainda está vivo,
Zombando dos generais que o fuzilaram.
Como o exemplo de uma mulher por trás das barricadas,
Defendendo a frágil democracia de sua
imensa Espanha
E gritando: No pasarán!... No pasarán!... No pasarán!


Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um amor adulto, aparando arestas,
Buscando completar um estranho quebra-cabeças
Onde sempre está faltando alguma peça.
(E não existe outro amor mais desafiante).
Poesia como as mãos de Víctor Jara, tocando,
Mutiladas mas ainda ali, tocando
Para todos os opressores deste mundo, tocando
Para os abutres disfarçados de defensores da liberdade,
Pois cada Pinochet é somente um títere,
Perigoso títere de uma ideologia onde o lucro
É o único Deus e a águia é o símbolo do poder.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como o espetáculo indescritível das estrelas
Numa noite clara, longe das cidades de neon.
Poesia como as mãos de um escultor
Moldando o barro, forjando o tempo.
Poesia como o sutil traço de um pintor
Transformando a matéria em sentimentos.
Poesia desesperada como um suicídio,
Como a dor das mães-avós da praça de maio,
Lutando contra o silêncio e o esquecimento.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como flecha contra mísseis e satélites.
Poesia como o pedaço de céu visto entre as grades
De todos os cárceres do planeta.
Poesia como a ausência das pessoas que perdemos,
Mas que continuarão em nós, enquanto vivermos.
Poesia como um barco regressando.
Poesia incoerente e bela. Incoerentemente bela.
Como o pranto solitário de Carlitos,
Como a ternura inquebrantável de Guevara.
Poesia necessária, poesia imprescindível
Como o ar que respiramos.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como o último índio de uma raça,
Exposto aos brancos como um animal exótico.
Poesia como o grito igualitário de Zumbi
Sem entender porque a cor difere os homens.
Poesia como o coração de Chico Mendes
Sangrando sobre o verde da amazônia.
Poesia como os cem anos de solidão
A que estão condenadas todas as Macondos
Deste hemisfério culpado por ser inocente.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um amor maduro,
Bebendo a última luz do entardecer.
(E não existe outro amor mais verdadeiro).
Poesia necessária, poesia imprescindível
Como o sol de cada dia.
Poesia como alguém que dá sua vida
Por um ideal, por um amor, por um amigo,
Poesia como alguém que dá sua vida por alguém,
Sem importar-se, que, afinal, está entregando
A sua mais bela e - quem sabe -
Única, necessária e imprescindível poesia.

domingo, 24 de junho de 2012

O Fim de uma Era: o "negócio" acabou


“A vitória da militância em cima de uma elite branca e conservadora impregnada em Pelotas”. Essa foi uma dentre algumas frases que ouvi a partir de sexta-feira. E resume em grande parte o momento que estamos vivenciando na cidade.


Tive a oportunidade de passar os últimos quatro meses em dedicação à assessoria de comunicação da Campanha do Movimento Reconstrução à reitoria da UFPel: primeiro e segundo turno corridos, apertados, mas vitoriosos. E mesmo que o discurso agora, pós conquista, esteja sendo positivo, afinal, se tivéssemos sido derrotados pela máquina, estaríamos cansados? Me fiz esse questionamento e percebi que independente do cansaço, do resultado e das  circunstâncias, ainda assim estaríamos com uma sensação de “valeu a pena”. Me sinto satisfeita por ter acompanhado de perto uma organização que se pautou a partir de questões “tabus” para a maioria do que representaram as outras 5 chapas – e especialmente à atual cabulosa administração.  

Mauro Del Pino e Carlos Mauch da Chapa 4 representaram ousadia nestas eleições porque não estiveram sozinhos. Uma força grande e renovada os acompanhou durante este tempo.  Algo urgente para quebrar um muro de resistência conservadora e imperial que se construiu há muitos anos na nossa cidade. O  processo eleitoral que a Universidade viveu foi muito desgastante, difícil, cheio de pressões, mas muito renovador. Agora, os nomes dos vencedores terão de passar pelo Conselho Universitário, formado por professores, servidores, alunos e representantes da sociedade, que encaminhará a nominata para ser homologada pelo Ministério da Educação (MEC).

Em uma cidade onde o orçamento da Universidade Federal acaba sendo maior que o da prefeitura, eu vi uma Pelotas de um lado e a Universidade do outro. Por anos. Não encontrei projetos que de fato, tivessem ligação e extensão – no real e necessário sentido da palavra. Já dizia um amigo: “A impressão que dá é que a Universidade estando em Pelotas ou na Tasmânia, não faz diferença para nós”. Não vi investimento coerente. Vi uma cambada de alunos de diferentes cantos do país (ponto positivo) caindo de gaiato neste navio que é Pelotas, mas questionando frustradoramente o motivo de terem parado em uma Universidade sem preparação e/ou preocupada administração (ponto negativo) para essa mudança de números de alunos e novos cursos (assustadora e aceleradamente crescente) na UFPel. Uma Universidade que estava morta. Estudei 2 anos apenas, através de uma Pós Graduação e pude presenciar, mesmo com alguns pontos positivos, um lado muito precário: biblioteca atrasada, estrutura vergonhosa, ausência de diálogos, invisibilidade.

Estamos estupefatos de ver nossa UFPel saindo das páginas de educação e reinando em páginas policiais. Milhões em conflitos com o Ministério Público, burlações, tapa na cara de servidores, professores e estudantes: Tapa na cara da cidade. Algo que não começa há apenas oito anos atrás. Não vou precisar falar de Inguelore, não vou aqui escrever o contexto duro da cidade. Eu quero pensar que o futuro de uma Universidade tão importante possa respirar uma liberdade inclusiva que não existiu há tanto tempo.

O Movimento Reconstrução volta à época de Amilcar Gigante, onde se foi possível transformar um negócio que, em muitas mentalidades, infelizmente deve seguir em tradição fechada e “de cima para baixo”. Vitória da democracia, vitória dos movimentos sociais, vitória especialmente dos estudantes, os quais foram protagonistas deste processo. Sem eles, hoje não estaríamos pensando que os próximos anos podem ser diferentes. Foram eles quem decidiram as eleições. 

E pensando em números, não sei se me espanto na massividade de votos que a situação novamente teve ou se penso que isso é completamente normal em uma Universidade que possui ‘moedas de trocas'. Não sei se me espanto com as “oposições” de primeiro turno que claramente fugiram do posicionamento para o segundo turno, ocupando uma ideia de 'neutralidade'. Não sei se devo me espantar.
Mas sei que a participação dos estudantes foi fundamental. Tanto na construção da Reconstrução, como especialmente no resultado que hoje, finalmente, comemoramos.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nas sextas: Revista Seja


Toda a sexta-feira estarei postando na revista online literária: Seja. 



Ela  foi lançada em Abril de 2010 com o objetivo de divulgar e promover a arte e a cultura através da participação de colaboradores na sua construção. Utilizando a plataforma Blogspot, a Revista desde o seu início contou com entrevistas, crônicas, opiniões, vídeos e muita poesia. A última postagem da primeira fase foi em Outubro de 2011.

Depois de sete meses na geladeira virtual, o blog  volta com outra cara:  o foco está  totalmente voltado para a poesia. E mais:  com edições e construções de cinco editores. Cada um tendo a responsabilidade de postar uma poesia em determinado dia da semana.

A postagem inicial terá um poema do autor, mas nas outras seguintes do mês, o autor divulgará poesias de outros autores, fazendo assim um grande intercâmbio e troca com o fortalecimento da divulgação de trabalhos espalhados pelo país.

A Revista Seja é formada por 5 autores de Pelotas e região. Um grupo que se dedica a eventos musicais-poéticose na divulgação de trabalhos no gênero literatura.

Portanto, nos encontramos nas sextas-feiras AQUI, em minhas palavras e em versos alheios...

domingo, 17 de junho de 2012

tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas.

> Pontal da Barra em chamas. Veja mais AQUI.


Se aquela mosca morta prestasse e tivesse juizo,
 estaria aqui aproveitando essa catervagem de belezas. 

Apesar de ser um indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não é mau. Oito metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido oito metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons. Sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza, torna-se estável e aumenta. 

Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível, merece pequena consideração. Desci, pois, em paz com Deus e com os homens.



narração/texto extraídos do filme "São Bernado" de Leon Hirszman, pela voz de Othon Bastos. Baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos.

Imagens: Incêndio no Pontal da Barra, em Pelotas, na semana passada.
Video: Caio Mazzilli.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Poesia no Bar vai a Jaguarão



A 11ª edição do Especial Poesia No Bar acontece amanhã (15), às 22h, no Clube 24 de Agosto, em Jaguarão/RS. O evento irá integrar a programação oficial da SEDA (Semana do Audiovisual), organizada pelo Sotaque Coletivo, de Pelotas. O Encontro Literário dentro da SEDA contará com participações de autores de Pelotas, Jaguarão e região.

Nesta edição, o Poesia no Bar contará com um Sarau Literário, exibição de vinhetas poéticas que concorreram na categoria Vinheta Universitária no 3º Festival Manuel Padeiro de Cinema e Animação e também a exibição do teaser oficial do Especial Poesia no Bar.

O Poesia no Bar é um projeto que começou em Pelotas, envolvendo autores da cidade que freqüentemente organizavam eventos literários com distribuições de poesias de autores locais. Com esta extensão a cidades vizinhas, o Poesia no Bar aumenta a sua proposta de intercâmbio artístico com a base que o sustenta: a literatura.

Autores de Pelotas confirmados:
-Ediane Oliveira
-Valder Valeirão
- Alvaro Barcellos
- Daniel Moreira
- Jorge Braga


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Para encerrar.

Tenha um ótimo final de tarde e uma boa noite.
Nos encontramos amanhã. No mesmo horário. E na mesma estação.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma utopia que se tornou real: Parabéns RádioCom


Mais um ano vivendo diariamente a aniversariante do dia. RádioCom hoje completa seu décimo primeiro aniversário. São mais de dez anos ao lado dos movimentos sociais, lutando pela democratização dos meios de comunicação.

Hoje a namoro ainda mais. Não sei até quando esse romance irá durar. Talvez ultrapasse a linha do tempo e do "ser" e "estar". E isso é uma das coisas legais da RádioCom: ela não sai da gente e nem saimos dela, mesmo que estejamos em qualquer parte do mundo. Mesmo que nossa voz não esteja presente.

A RádioCom me trouxe vozes, amigos, paixões, canções, desafios, saudades, angústias, conhecimentos e inquietações. Me mostrou minha cidade mais real. Me trouxe minhas raizes, me deu um pouquinho de outros estados. Me deu um pouco mais do mundo. E acima de tudo, acendeu em mim, ainda mais, aquela chama que não deve se perder para continuar acreditando em uma comunicação mais social. Para que as coisas possam ainda fazer sentido neste meio tão delicado e diverso.

Que longa vida tenha a Rádiocom! E que essa vida possa sempre estar firmada no direito à comunicação e à cultura, construindo uma sociedade mais justa, reflexiva e solidária.

RádioCom 104.5 FM: música de qualidade e informação crítica como prioridade nas ondas do seu rádio. Sintonize e subverta!

sábado, 9 de junho de 2012

Lembro.


Well, if you're travelin' in the north country fair,
Where the winds hit heavy on the borderline,
Remember me to one who lives there...

I'm a-wonderin' if she remembers me at all.
Many times I've often prayed
In the darkness of my night,
In the brightness of my day.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

Porque Itamar Assumpção não é pouca coisa.


Salve essa ousadia, salve o suingue, a malandragem cativante,
a poesia, a marginalidade, as cores, a visceralidade...
salve essa sua coisa tão retrô-saudosa-moderna-eterna...
Salve Itamar! Salve os negos ditos desse país!



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Uma micropoética do ressentimento, do rancor e de outras duas categorias com R


.
Não se trata, antes de mais, de uma inversão retórica que outorga valor positivo àquilo que é tão caro por seu caráter torpe e deletério; não se trata, de modo algum! de uma atribuição impetuosa de gênio médio que estetiza a maldade, a mordacidade e a mediocridade em uma operação que aflora o bom gosto porquanto o deflora; uma micro ou pequena poética tampouco se constitui como retração ou cirurgia conceitual: sua missão é outra, não importa qual — desde que sempre outra. Eclode, portanto, menos como uma configuração qualquer que arremata uma obra e reflui sobre ela como sombra intelectual do que como um compromisso daquele que a faz emergir, um compromisso que zela pela pequenidade em um obsessivo e possessivo cuidado que divisa pontualmente na rachadura do caráter, da identidade, da técnica, da obra ou do pássaro cinéreo que singra pela intempérie celestial o espaço emergencial daquilo que há de mais poético nestas ocasiões — pois, mesmo que não haja nada ali, tem-se uma fé inquestionada de que é mesmo na falha que paira a possibilidade de emergência. O caráter da obra a partir da falha e da falta — ali onde a obra falta —, sendo assim, é, talvez, emergencial: a obra é sempre emergência para o artista. Assim, creio que esse lapso do arranjo através do qual ele mesmo se trema propicie, ao revés, a possibilidade negativa de uma cúria que medra ela mesma na interrupção defeituosa, no hiato da harmonia e assoma a obra, em um rompante, a partir da sombra do detalhe, da nódoa indelével, da niilina sempre impendente de modo que, e isto é apenas uma simples possibilidade, o gênio, se me é permitida a utilização deste termo com modesta conotação genésica, já concebe sua criatura em um delírio invertido: a gênese da ruína é a ruína genérica — tudo oblitera-se e anula-se em uma vertigem ubíqua; restam o medo insondável e a solidão aterradora de quem só consegue, com tudo, remover o véu do nada e drapejá-lo ansiosamente, legando-se morosamente à melodia pungente dos ventos do terror da incerteza como quem abandona-se ao pélago da alma em um projeto negativo totalizador: é a obra — o edifício, o excremento, a endrômina humana; é a obra como testemunho do ato que enerva e extingue, o ato por trás do qual o actante retira-se, seduzido a passar à dimensão própria do ato que, conjeturo, é a dimensão em que se fazem básicos o residual e o impensável. A falha é — consumação e consumição — conjunta e concorrentemente — mas não tem lugar; o que, no entanto, põe e depõe, se tudo elide, se tudo esquiva? Se sucede, não obstante, creio que se trata de uma supressão serena, recorrente, mas sempre ocorrida — é o ressentimento, o rancor, repúdio, ridículo e o retardo — revertem-se todas as categorias com R que sintetizam os processos, os sentimentos, os atos e tudo que há de genésico, e também mortificante, justamente ali onde a obra cessa, onde o erro se converte em necessidade. Não há, porém, nada de benfazejo ou de encantador no erro, reitero; ele é, antes de mais nada, doentio, obsessivo — obsidia o gênio — é o que dá à luz, de soslaio, a falha, a ruína, como soleira. Uma micropoética neste sentido, por fim, talvez caracterize-se por um esforço canhestro e incipiente de voltar-se a esta soleira: ela é o detalhe que, embora articule, também interrompe, desconfigura, derroga e rasga; é uma atenção cuidadosa e alucinada, por vezes premente e necessária, generativa. Uma micropoética assim talvez seja nada mais do que a vertigem do trespassar — uma vertigem clínica.

(O poema que eu quero ler. Acho que sempre.)

terça-feira, 29 de maio de 2012

souljazz


Profundamente dentro.

sábado, 26 de maio de 2012

O Sistema parece ser Único.

.
É de se indignar com a grande precariedade administrativa do sistema de saúde em Pelotas. Definitivo no cenário da vida de centenas de famílias que, na maioria dos casos, vivem situações emergenciais. Precisa-se sentir na pele, meu amigo. Latejando a cada dia que passa. Um drama real.

Áreas criticas vêm sofrendo com a falta de disponibilidade do SUS, ainda que as instituições responsáveis tenham a certificação em “filantropia”, o principio de estabelecer isenções de impostos para a cobertura de operações às classes menos favorecidas. 

Mais de 100 cidades aguardam cirurgias para retiradas de cálculo renal e inúmeros outros homens necessitam da cirurgia de próstata. Atualmente a Santa Casa de Misericórdia possui dois médicos para todas essas cirurgias. A área da Urologia - ao lado da Pediatria, é a que mais recebe reclamações diariamente na Conselho Municipal de Saúde.

Que a Secretaria de Saúde discuta junto aos hospitais locais a ampliação destes atendimentos aos usuários do SUS, cumprindo responsavelmente a Lei que estabelece a regularização para tantos pacientes que possuem seus direitos... e ainda esperam.


Santa Casa de Misericórdia.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Quilombo Rio do Macaco (2011)

.
O filme denuncia flagrantes desrespeitos aos direitos humanos fundamentais.


(Brasil, 2011, 15 min - Direção: Josias Pires)





"Canudos é aqui, entre Salvador e Simões Filho, na Baía de Aratu. Este filme mostra que a Marinha do Brasil deflagrou nesta região guerra a um grupo de famílias negras descendentes de escravos que vivem ali antes da chegada da marinha. Hoje constituem mais de 50 famílias reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo.

Entre os moradores há pessoas com mais de 100 anos que nasceram no mesmo local onde vivem até hoje. Só que agora sob regime de tensão e violência, aterrorizados: garantem que passam a noite acordados com medo de morrer (soldados passeiam à noite toda pelas suas roças) e têm medo de sair pois quando voltar poderão encontrar a casa derrubada.

O acesso à comunidade é controlado pelo portão de entrada da Vila Militar, um condomínio de residências de sub-oficiais da Marinha; e os conflitos vêm, sobretudo, com a construção desta Vila, a partir de 1971. As famílias da área foram removidas e desalojadas. Hoje estão proibidas de plantar e sendo expulsas da área."

sábado, 19 de maio de 2012

Exposição "La Guerrilla"

.
Uma reflexão sobre o mundo atual, uma leitura dos conflitos e visões contemporâneas de uma guerra civil, onde a cidade é a arena.



Exposta no Espaço Ágape, em Pelotas.
Produções dos artistas grafiteiros Jotape Pax, Bero, Ges e Veiz.

Visitação até o dia 9 de Junho.




quarta-feira, 16 de maio de 2012

no fundo do prato.

.
sua mão fechada
sua boca aberta
seu peito deserto,
sua mão parada,
lacrada,
selada,
molhada de medo.


E eu inda sou bem moço
pra tanta tristeza.
Deixemos de coisas,
cuidemos da vida,
senão chega a morte
ou coisa parecida,
e nos arrasta moço
sem ter visto a vida
ou coisa parecida aparecida.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

domingo, 6 de maio de 2012

Entrevista com Carlos Walker

.
Recebi na Programação do Navegando Rádiocom, o cantor, intérprete e escritor Carlos Walker.
Considerado como uma das vozes mais promissoras da década de 70, ele é o tipo de artista "não muito conhecido" do grande público, mas seu cenário de vida artística mostra uma gama de histórias curiosas e uma boa experiência musical adquirida ao longo dos anos.

Chamando a atenção de Elis Regina lá em 1969 aos 14 anos após ter vencido um Festival de Novos Cantores, Carlos caminhou sua trajetória na arte tendo vivências musicais com Piri Reis, João Gilberto, Tom Jobim -chegando a interpretar um disco inteiro com suas composições; compôs para Hermeto Pascoal; tem três livros escritos, quatro discos lançados e muitas outras histórias.

Confira na entrevista:

domingo, 29 de abril de 2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

'Mas isto não é importante...'

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Além de outros cenários nebulosos na atual administração em Pelotas, o cultural também entra na rota como um dos mais escanteados e sem preocupação coerente do poder público.

Em entrevista, o instrumentista Celso Krause expôs parte da situação que retrata o panorama atual: movimentos separados e suportes raros - ou nulos - da Secretaria de Cultura.

Recentemente mais uma história veio a tona: Ainda não receberam pagamento os diversos músicos que participaram das "comemorações dos 200 anos da cidade" no projeto ARENA , o qual reuniu artistas se apresentando na praia do Laranjal durante dois meses, no periodo de veraneio.

O resultado?  Sem respostas.

É o Procultura ainda em 'banho-maria', o Sete de Abril apodrecendo, Carnaval complicado… e Paris conhecendo Pelotas!

O video a seguir não está editado em questões técnicas, mas a pedido do músico, disponibilizamos a entrevista, ainda que estejamos preparando um material completo para a comunidade ter acesso... antes que seja tarde. Antes que anoiteça mais uma vez.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

insônia


escrever-te
 é aliviar esse clamor
ardente chama
escarlate cor


que range
tua falta tão presente
cáspide
encarecidamente


neste corpo
saudoso
dessa tua boca
agressiva
infetuosa
 que mata.


vem
em tua gravidade furiosa
tua cólera voraz
teu ânimo insano

dentro
em pranto


e banha meus ossos
como se eu
não existisse
ao amanhecer.


nina teu jeito de menino
com teus negros cabelos
-virgens
enrolados em meus dedos
-cravados
que correm
em tua face


e escrevem poesias
invisíveis
em tua cabeça

fixa meu par de pernas
em tua cintura
essa pulsante tremura
de ouvir uma canção
e te imaginar
em uma cena
com dois amantes

desesperados.

são essas lembranças
sufocadas e irreais

que corroem

são esses urros
costas salivadas

que rasgam

é essa tua pele
salgada
e é teu não explicar

que arde

é a ácida força
é essa ousadia
de me fazer tua odre
ao menos por segundos

que me faz cair em mim

e querer te cortar
em pedaços
e enviar para o espaço

a qualquer planeta
que não me exista

a qualquer mar
que não chegue
até mim
a qualquer caminho
sem fim

a qualquer árvore
sem fruto
a qualquer mundo
sem absurdo

a qualquer corpo
que
não
seja
mais
o meu.

domingo, 22 de abril de 2012

Cântico dos Cânticos I

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Beija-me com os beijos da tua boca; 
porque melhor é o teu amor
do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos,
como ungüento derramado 
é o teu nome; 
por isso as donzelas te amam.
Leva-me após ti, apressemo-nos.

Eu sou morena e formosa
como as Tendas de Quedar,
como as cortinas de Salomão.

O meu amado é para mim
um saquitel de mirra,
posto entre meus seios.


[ Do livro Cantares, também chamado de Cântico dos Cânticos ]

terça-feira, 17 de abril de 2012

.. but I remember everything.

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I hurt myself today
To see if I still feel.



sexta-feira, 13 de abril de 2012

oração

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sossego:

me cegue
do seco
me sane
em cima
do sol
me sirva
sua
sombra
me sare
somente
do mal.

alento:

alimenta
leva
além
lava

minhas
lamas
limpa

até a chama

ainda acesa
atenta
inflama
e clama
aqui dentro.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

“Receitas que vinham na minha memória: pelo paladar, pela lembrança...”

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Livro Memória Culinária: Coisa de Vó da escritora mineira Junelise Martino reúne passado e literatura

Quando o escritor Mia Couto escreveu: “Cozinhar é um modo de amar os outros”, ele estava certo. Na busca de homenagear duas avós pelos ensinamentos de receitas desde a infância, Junelise Martino escreveu – e produziu, através de suas próprias mãos, – o livro artesanal Memória Culinária: Coisa de vó.

Partindo de seu estudo e gosto pela literatura, o livro – inicialmente idealizado em uma disciplina do curso de Letras – uniu o ato poético de cozinhar com o formato antigo de caderno de receitas: aqueles bem preparados para as confraternizações de amigos e famílias; cadernos rabiscados, escritos a mão, com recortes e detalhes.

O livro não apenas faz o leitor acompanhar cada palavra através da leitura, mas também aguça outros sentidos humanos. Ele faz sentir cheiros de ervas e temperos e chama o sentido de tocar em cada pedaço que o compõe, com colagens de embalagens.

Falando sobre o processo de criação do livro e sua inserção em projetos culturais em Pelotas, a escritora Junelise Martino conversou comigo para o ‘Quadro Cultural’ do programa de TV Nossa Luta.


terça-feira, 10 de abril de 2012

sábado, 7 de abril de 2012

Cambia también lo profundo.

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Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia, todo cambia...

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia, todo cambia...