sábado, 31 de dezembro de 2011

Quero apenas cinco coisas

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Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

[Neruda]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

sábado, 24 de dezembro de 2011

De concreto, tenho a vida

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O silêncio. E o balançar das asas da mariposa que voa freneticamente em meia luz. São silhuetas do meu cenário aqui. É difícil, mas excitante pensar, - diante desse silêncio vazio e estridente, nos rumos de tantos caminhos paradoxos e entrelaçados. Gil Scott Heron geme ao piano que grita e dança ao passo da batida – lenta e penetrante: Looking for a way, out of this confusion. Preciso aumentar o som porque me mira e me leva. E porque os zunidos do inseto me entontam. É isso que me faz companhia aqui.

Lá fora, gotas caem em pleno cansativo dezembro. Não faz muito tempo que saí de perto de sirenes, sangue, gente sentada e deitada – a espera. Toquei suas mãos, beijei seu rosto e encostei-me em seu peito. Ele sorriu. Antes, 192 súbito e de repente. E ainda dizem que o solstício é no dia 21 de dezembro. O meu foi hoje. Em minha esfera, sua declinação demorou mais. Atingiu o maior tempo em latitude, me aqueceu e me insultou durante o longo dia todo. Minha órbita parou e eu vi o cair do meu mundo em instantes pelo reflexo de dor, impotência e desespero. Meu sol se foi, trazendo a escuridão que, através do vidro da janela, me observa agora com calma.

O cenário é o silêncio, o zunido, a gota, o som e o lento levantar da cabeça... de olhos fechados. Sempre consegui entender que o silêncio pode estar no meio do mar barulhento. Talvez esse último solstício do ano me fez viver hoje, - o dia que ainda não acabou como marca e banho de água gelada ou fervente que mostra sentido. E nem tudo faz sentido. Importa a vida que hoje foi colocada à prova. Você vai me dizer: ‘ela é colocada todos os dias.' Viver é um desafio, eu sei. Mas hoje eu sei que meu 2011 foi maior do que meu 2010.

Eu não sei como é perder quem mais amamos. Talvez seja uma espécie de perda de si mesmo e de tanto sonho sonhado junto. Há tanta vida lá fora querendo viver; também sei disso. Mas e quando as lembranças trazem a vivência inigualável e profundamente doce de uma relação mútua e significativa? Não sei, de fato, o que é morte e sei que um dia irei conhecê-la. Temo, mas temi hoje mais do que sempre a partida de quem mais amo. A morte de alguém que é a mesma minha. Não existiu, mas doeu.

E precisei de um abraço como dificilmente tanto busquei. De dentro do carro, um amigo, me disse: “viva, simplesmente”. Tirou parte do meu medo como bálsamo derramado em minha voz presa. E me sorriu com lágrimas falando de suas afeiçoes. Veja só como é a vida! Um dia pechamos copos com batidinhas de brindes! e às vésperas de um natal choramos por medo e incerteza.

Talvez a dor me faça mais forte. Talvez o insulto me faça mais corajosa. Talvez o sol só aqueça e a noite só encante. Talvez o susto lembre que a vida é uma só. Talvez a vida acabe logo ou permaneça. Talvez o brinde chegue agora no natal e todos nós estejamos em casa, juntos mais uma vez.

'Obrigada por ainda estar aqui. Me confortas. E me inspiras.'

E o zunido não pára. Mas o piano canta. De concreto, tenho ainda meu sorriso.

Quero estar perto de tudo. Lembrar do que sinto. Dizer que já fui feliz. E que o sol há de brilhar mais uma vez. Quero ficar ao lado, sentindo as batidas como quando segurei suas mãos e pedi pra ficar mais um pouco. 'Obrigada por ficar.' Quero continuar sendo água. Quero o colo. Rivers of my fathers. E os dias para continuar vivendo. De concreto, ainda tenho a vida e a presença de quem amo.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Deixe o coração falar também

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Porque ele tem razão demais quando se queixa.



Então a gente deixa, deixa , deixa, deixa
Ninguém vive mais do que uma vez
Deixa
Diz que sim prá não dizer talvez
Deixa
A paixão também existe
Deixa
Não me deixes ficar triste.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Essas tuas verdades...

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essas tuas verdades
vão acabar criando deuses
caindo de escadas
saltando da vida pulando sacadas

essas tuas verdades
vão acabar acordando demônios
tropeçando nas cores
pisoteando a grama
represando as dores

essas tuas verdades
vão acabar despertando luxúrias
causando pudores
mordendo a carne
retesando amores

essas tuas verdades
nem parecem mentiras.
[Valder]

Foto: Piquenique Cultural - 18/12/11

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Mi piel es de cuero...

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Soy la fotografía de un desaparecido
La sangre dentro de tus venas.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Giovane Oliveira

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Junto ao sangue, somos érnias, cordões e veias.
Te trago comigo como selo em meu peito. Feliz aniversário.

Lixo e Tô chutando Lata

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

Hip Hop em Pelotas: Sobre dias bons e noites ruins

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No Dia da Consciência Negra, Pelotas recebeu um dos maiores eventos culturais de 2011: Hip Hop Representa. O local trazia a estética de uma velha renovada Pelotas, com suas paredes envelhecidas, na antiga Estação Férrea, - um dos locais onde os negros antigamente nem chegavam.

Palco pronto, periferia no centro, música e palavras durante o dia todo. Pelos lados e cantos, rostos velhos e novos: Jair Brown, Gagui IDV, Banca CNR, Contra Regra, Guerreiros de Mente Aberta. Palco e platéia eram um só.

A noite teve a participação, 'vinda do Planalto Central', de GOG.


Genival Oliveira Gonçalves é percursor do movimento no final dos anos 80, em Brasilia. Com envolvimento em movimentos sociais como o MST e projetos pessoais na área da educação, Gog tem a língua afiada e com seus poemas longos de protesto exprime absurdos sociais, alivia indignações como porta-voz e motiva a entender que o que está diante dos nossos olhos é tão urgente quanto nossa necessidade de viver.

Video – Coletivo Rede:

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E pese a pauta ‘hip hop’, impossível não lamentar o episódio no mínimo desconfortável que aconteceu ontem (link também AQUI) com a produção do show do Emicida na cidade. Depois de um 20 de novembro em paz, Pelotas desconstrói parte do que vem construindo e intensificando. Sim, 2011 foi um dos anos emblemáticos para o movimento hip hop. Depois de tanta resistência, picuinha, periferia contra periferia e motivações pessoais, finalmente algum avanço se teve neste ano: Discussão da Lei de Incentivo à Semana do movimento, audiências massivas, gravações de discos e clipes, envolvimento com a região sul e eventos unificados.

Como testemunha do crescimento que vi neste último ano, encerro dezembro com um pouco de esmorecimento depois da violência de ontem. E não falo apenas de 'empurra-empurra', tensão e batidas corporais. Falo da ausência de cautela a algo que deveria ser mais sério, considerado e pesado por ambos os lados.

Meu desejo, como pelotense e representante da imprensa cultural é que possamos parar e refletir sobre a história representativa na cidade. A cultura hip hop não deve servir para o enobrecimento pessoal, mercadológico e hipócrita daqueles que se dizem ‘representantes’ de um movimento que nasceu com a motivação de agregar e transformar a realidade.

Para encerrar, esperando um 2012 mais maduro para o movimento cultural, ainda que reconhecendo seu esforço, fico com as palavras de Gagui: “Ou a gente devolve o hip hop pro povo, ou o povo vai abrir mão de lutar pela causa.”

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Kill what's inside of you.

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Clapton para curtir e Hendrix para excitar a vida.



De cara a la pared

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Tudo é teatro

Ótimo para ficar 'oprimido' nessa sexta-feira sem cara de dezembro...

Augusto Boal inspira.



Que cada um diga o que fez, a que veio e por que ficou.
E que cada um tenha a coragem de, não sabendo por que permanece, retirar-se.

Pusilânimo

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Luz esmorecida diante de tudo
Somos nós, de novo, cego e mudo
O castigo que traz brado de alívios
Somos nós, como nunca, em homicídios.

Reviveremos pois, um dia,
ineditamente, um a um e para o outro
Se acaso me enxergares diante de luz
Como tua, em teu corpo
Resplandecendo marcas de ânimo
Devagarinho
Limpando cada pranto.

É assim que te vejo
E é assim que me entrego
Por trás da luz que desaparece aos poucos
Tua presença ainda corta meus medos tolos
Estaca o sangue, inunda a alma
Acalma

E jorra em mim teus pedaços
Antepassados e presentes.
Somos nós, e eu sozinha
Em sonhos quentes.

Ousada, te lanço manifestos, te coloco em uma cruz
Teus laços tão vivos: teu peito quem conduz
E assim, como quem morre,
desligo o abajur, visto o capuz
E me apago, violentamente,
conforme essa luz.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eu existo aqui

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E nela serei pra sempre o nome de cada pedra
E as luzes perdidas na neblina.
Quem viver verá que estou ali.
[Ramil]

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Marca-página Poesia no Bar

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Amanhã (30) tem mais uma edição do Cult Festival.
E o Projeto Poesia no Bar estará presente mais uma vez.

O público receberá um marca-página, responsável por circular com textos de autores da cidade. O de minha autoria, dessa vez, veio com o "Melindramento":


Arte: Valder Valeirão

Peace go with you

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sábado, 26 de novembro de 2011

25 de Novembro: NÃO à violência contra a mulher

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25 de novembro. 1960. Ditadura violenta de Rafael Leonidas Trujillo na República Dominicana efervescendo sangue e autoritarismo. Uma das mais ardentes ditaduras da América Latina assassina, covardemente, três mulheres militantes que lutavam por seus direitos: Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal (as irmãs Las Mariposas).

Vinte anos depois, o Primeiro Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho, realizado em Bogotá, na Colômbia, traz a data do assassinato das Las Mariposas como o Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta contra a violência à mulher.

Em 1999, a Assembléia geral da ONU declara a data como o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher, justa homenagem ao acontecimento de Pátria, Miverva e Maria Tereza.
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25 de novembro de 2011. Mais um dia comum ao meu redor. Mas aqui dentro, devo dizer que, mais uma vez, reflexões maiores emergem em minha mente sobre a posição da mulher na sociedade. Já faz algum tempo que acompanho a mobilização – principalmente virtual – forte e articulada – no ativismo pelo fim da violência contra a mulher. Naturalmente, e por diversos motivos óbvios, fiz entrevistas com as organizadoras no ano passado, participei da blogagem e divulguei a iniciativa. Não foi preciso muito para ver que o crescimento, por si só, tomou uma força ainda maior, não apenas nas redes, mas principalmente, nos espaços de discussões e encaminhamentos que, com o passar do tempo, têm-se tomado um avanço relevante.

Hoje, blogagens, fóruns e uma série de manifestações individuais ou coletivas, sociais ou artisticas, declaram repúdio à violência contra mulher. Minha posição é simples, lógica e um tanto previsível: datas simbólicas devem existir como incentivo a uma luta constante e fortificada nos nossos dias, ainda que os focos na data sejam, sem dúvida, representações importantes para chacoalhar alguns temas necessários e muitas vezes esquecidos. E é por isso que me sinto a vontade e ao mesmo tempo na responsabilidade de exercer meu papel aqui em minha página pessoal, de não apenas como mulher, mas como cidadã.

Fui presenteada, propositalmente hoje, com o livro “Mulheres”, de Eduardo Galeano. Não bastasse a minha satisfação em receber o singelo gesto, foi uma surpresa também: é a segunda vez que ganho o mesmo livro. Coincidência? Não acredito tanto nela. Em menos de 5 meses, recebi duas vezes a mesma obra. E não é para menos que, ao folhear as páginas, a cada verso, palavra e descrição, me perpetuo em tantas linhas como bálsamo para algumas dores.

Páginas aliviantes.

Galeano é enfático, generoso e penetrante: de cara, enxerga a sensibilidade de morcegos causando risos em homens guerreiros; ressalta o riso como dádiva tão forte que se torna insuportável para fracos. E humaniza e fortifica, por fim, ainda mais o sexo feminino: “Os guerreiros resolveram que o riso fosse usado somente pelas mulheres e crianças”.

Ele ‘desconstrói’ forças e enxerga a natureza feminina não apenas como o eros envolvente e poderoso, mas lembra a sintonia materna com a terra e a natural semelhança do solo com a essência feminina: “Onde elas tinham ficado sentadas, ficou a terra toda regada de dentes”.

Mistura a natureza selvagem com a humana, de um lagarto que outrora via carne humana como sustento, hoje sente dor, paixão e sonha pela primeira vez na vida com uma mulher: “Sou um mendigo do amor, e com voz quebrada e alarmante tendência à rima, sussurra homenagens de agonia à dama que lhe roubou a calma e a alma”.

É fiel a sensações incapazes: “Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora, mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta”.

De forma poética, em cada página, relata a história de diferentes biótipos e personalidades no mistério do mundo feminino, ao longo da história da humanidade. Relembra seus casos, inventa outros. Todos, com intensidade.

Folheio mais uma vez as páginas já lidas em pouco tempo, com aquela sensação de primeira vez. E, como num lapso, me teletransporto à composição que recebo da amiga Janete Flores. Dura como a realidade:

Essa é uma noite qualquer,
como outra qualquer para aquela mulher
E pra tantas que passam na mesma aflição
e pra aquela que reza atrás do portão
é mais um dia qualquer...
como tantos ...qualquer!
Como tantos... E faça o que fizer
reze o que rezar
o motivo é sempre tão banal...
é todo dia sempre igual... seja útil, ou natal,
tudo é mesmo tão banal...
natural...normal... igual!
Total, banal, fatal!
E o silêncio mostra a cara tão valente
E o silêncio nessa terra é estridente...
total! banal... comum... fugaz...
fatal... tão assim... tanto faz...
logo a Ana... logo a Rita ...
logo sara... bem na cara...
logo inflama, reza a filha...
berra e cala ...
logo aninha, ..logo paira,
logo gela... logo vela...
nada fala... na capela...
mais um ano...muda o santo... e pede ela...
primavera, logo sara...
logo a Rita, logo a Vanda...
logo a Rosa e a Marina...
logo ela... logo a quem?
Logo a Rosa, logo a Vera
logo cala, logo gela...
logo o que...Qual o que?...
Logo a Penha!

Trocando freneticamente os canais após um dia cansativo de trabalho, no noticiário sensacionalista, encontro um jornalista performático esbravando palavrões a um violento homem possessivo que espancou a mulher por ciúme (?!). Mais violência. E é claro que não é só física. O dia 25 é outro qualquer como tantos outros para aquele casal. Aqueles tantos. Como em uma noite que cuidei do meu pai no hospital e presenciei, com meus olhos calmos e assustados, a cena de mulher ensangüentada, marido covarde e policial. Todos no Ponto que grita Socorro, em busca de medicação, avaliação, alívio e justiça. Tudo de volta a mente.

Tento voltar para Galeano, que entre contos e versos imaginários, é também real, e repito, penetrante.

Tento voltar. Tento... Volto e encontro: “Para que o amor seja natural e limpo, como a água que bebemos, haverá de ser livre e compartilhado. (...) Sem uma nova moral, sem uma mudança radical na vida cotidiana, não haverá emancipação plena.”

Meu peito estufado. Respiração desce com suspiro longo e calmo.

Já está tarde. E os olhos ficam um pouco embaçados. Talvez seja cedo, ou tarde – dependendo da perspectiva - para fazer alguns raciocínios ainda que lógicos. Preciso dormir. O livro vai para a cabeceira mais uma vez. Amanhã, hoje, é 26. Noticiários, hospitais, poesia, ativismo, realidade. Tudo outra vez. Mas a força... se sente mais forte.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Raízes e Coração: um disco temático

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As mãos que hoje estão livres, que soam inconfundivelmente o pampa, são as mesmas que há séculos foram retiradas de seus chãos em algum lugar de uma África, e que construíram, regados a suor e sangue as grandezas e a história que nunca lhes pertenceram. Histórias de dor e amor fazem parte do disco gravado ao vivo por
Dudu Freda, contando cenas nascidas na África com desenrolar em Pelotas, nos tempos das Charqueadas e nos dias atuais

Delicadeza, elegância e atitude. Palavras que talvez consigam descrever parte da gravação do CD/DVD “Raízes e Coração” do trabalho solo de Dudu Freda. Não foi somente uma musicalidade carregada de influências afro, em uma temática própria da boa música – o que por si só, já é um grande avanço. E também não foi apenas uma boa formação de banda com a união no palco de diferentes músicos – todos com destaque na cena pelotense. Mas, acima de tudo, foram gritos que gemem contra um passado sangrento e escravizado, de uma história vergonhosa do Rio Grande do Sul. História por tantas vezes escondida, abafada, como se não refletisse na dor de muitos ainda nos dias de hoje. Os gritos em forma de cantos e batidas, não apenas gemiam, mas traziam conforto, através de contos de um amor que nasceu na África e atravessou o Oceano para inspirar uma nova história.

Na noite de 16 de novembro, no Bar João Gilberto, o músico e compositor Dudu Freda materializou um trabalho que colecionou durante anos, pesquisando a história dos pampas na perspectiva da cultura negra, buscando trazer a tona a chibata e o sangue, mas também tambores, beleza, amor, ritos, liberdades e forças.

De acordo com Freda, o disco temático não apenas retrata a cidade de Pelotas, mas faz menção ao País, com características do passado somadas a contemporaneidade. Partindo através da arte, o disco busca não esquecer de uma luta que ainda é viva, mas que pode, com misturas de realidade e imaginário, construir um novo momento para a cidade: “Fui o elo das energias que chegaram até mim sobre histórias do negro e do amor, apenas fui o instrumento”, disse o compositor.

Com participações especiais dos músicos Aluisio Rockemback (acordeon), Daniel Zanotelli (sax), Edu da Matta (gaita) e o rapper Zullu, Dudu Freda e sua banda presentearam os participantes com um disco que, sem dúvida, mostrará Pelotas de uma forma mais verdadeira e humana.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Beija-me em cada acorde

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Beija-me com beijos de vinho
Beijos de água
De lírio
E suspiros
Que ouço
Teus beijos
E sinto sons
Nossos
De gana, medo e falta.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

domingo, 20 de novembro de 2011

20 de novembro

Dia da Consciência Negra

Que esse dia seja frutificado no decorrer de outros dias de conscientização de uma história marcada por um passado sangrento, mas guerreiro de toda e qualquer luta. Ainda nos dias de hoje.

Salve a negritude que é linda em sua essência, linda em sua beleza,
linda em sua força!




Encontrei minhas origens
Em velhos arquivos
Livros

Encontrei
Em malditos objetos
Troncos e grilhetas

Encontrei minhas origens
No leste
No mar em imundos tumbeiros

Encontrei
Em doces palavras
Cantos

Encontrei minhas origens
Na cor de minha pele
Nos lanhos de minha alma

Em mim
Em minha gente escura
Em meus heróis altivos

Encontrei
Encontrei-as, enfim
Me encontrei.

[Oliveira Silveira, o poeta que, em 1971, declarou o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, como o Dia da Consciência Negra]

sábado, 19 de novembro de 2011

Mais um Sarau

Dessa vez, libertário!


Com realização do Teatro do Chapéu Azul, a noite contará com os autores Alvaro Barcellos, Aline Maciel, Ediane Oliveira, Marcelo Ferreira e Rogério Nascente. Na música, haverá apresentação da AntiOrquestra RZZZ. Já a Confraria do Xadrez reúne enxadristas para jogadas regadas a muita poesia e música.

O primeiro Sarau Libertário aconteceu durante a Edição de Lançamento do Festival de Inverno de Pelotas. O evento reúne literatura, música e xadrez e é aberto a participação de todos os interessados. A entrada é franca.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Forte como água

São poços de petróleo
A luz negra dos teus olhos.

Lágrimas negras saem, caem, dói.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Do olhar ausente, inefável

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vertem cachos em cachoeira
que se perdem em labirintos
de um caminho inevitável.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mídia reforça o racismo no Brasil

Dennis de Oliveira, membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro da USP, falou com a jornalista Marilú Cabañas da Rede Brasil Atual sobre o tratamento desigual entre brancos e negros na mídia brasileira e norte-americana.




quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Nosso sol

há de ser nosso.

Foto: Quadrado

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O que move...

é o movimento.

domingo, 6 de novembro de 2011

Anybody hear my cry?

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Can anybody out there hear our cries?

sábado, 5 de novembro de 2011

Fernando Morais palestra hoje em Pelotas

Com organização do IMA e da BPP, o autor do mais recente livro "Os últimos soldados da guerra fria" é o convidado para o Conversa sobre Livros



Autor de biografias e de obras do estilo livro-reportagem – A Ilha , Olga e Chatô, o Rei do Brasil, entre outras – que já venderam mais de dois milhões de exemplares , Fernando Morais é o convidado especial da edição do próximo dia cinco de novembro do CONVERSA SOBRE LIVROS.

No salão nobre da BPP, a partir das 18 horas, o autor participa de mesa redonda, conversa com o público e apresenta o recém lançado OS ÚLTIMOS SOLDADOS DA GUERRA FRIA ( Cia da Letras, 2011) , obra centrada na história dos agentes infiltrados por Cuba , na década de 90 , em organizações de extrema direita nos Estados Unidos. Entrada franca, como em todos eventos da Bibliotheca. A presença do autor no Conversa sobre Livros resulta de uma parceria da BPP com o IMA ( Instituto Mário Alves), com a colaboração dos parceiros institucionais IF-SUL , Unipampa e Sesc-RS.

OS ÚLTIMOS SOLDADOS DA GUERRA FRIA
No início da década de 1990, Cuba criou a Rede Vespa, um grupo de doze homens e duas mulheres que se infiltrou nos Estados Unidos e cujo objetivo era espionar alguns dos 47 grupos anticastristas sediados na Flórida. O motivo dessa operação temerária era colher informações com o intuito de evitar ataques terroristas ao território cubano. De fato, algumas dessas organizações ditas “humanitárias” se dedicavam a atividades como jogar pragas nas lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana e, quando Cuba se voltou para o turismo, depois do colapso da União Soviética, sequestrar aviões que transportavam turistas, executar atentados a bomba em seus melhores hotéis e até disparar rajadas de metralhadoras contra navios de passageiros em suas águas territoriais e contra turistas estrangeiros em suas praias.

Em cinco anos, foram 127 ataques terroristas, sem contar as invasões constantes do espaço aéreo cubano para lançar panfletos que, entre outras coisas, proclamavam: “A colheita de cana-de-açúcar está para começar. A safra deste ano deve ser destruída. [...] Povo cubano: exortamos cada um de vocês a destruir as moendas das usinas de açúcar”. Em trinta ocasiões, Havana formalizou protestos contra Washington pela invasão de seu espaço aéreo por aviões vindos dos Estados Unidos - sem nenhum efeito. Enquanto isso, em entrevistas, líderes anticastristas na Flórida diziam explicitamente: “A opinião pública internacional precisa saber que é mais seguro fazer turismo na Bósnia-Herzegovina do que em Cuba”.

Os últimos soldados da Guerra Fria narra a incrível aventura dos espiões cubanos em território americano e revela os tentáculos de uma rede terrorista com sede na Flórida e ramificações na América Central, e que conta com o apoio tácito nos Estados Unidos de membros do Poder Legislativo e com certa complacência do Executivo e do Judiciário. Ao escrever uma história cheia de peripécias dignas dos melhores romances de espionagem, Fernando Morais mostra mais uma vez como se faz jornalismo de primeira qualidade, com rigor investigativo e sofisticados recursos literários. (Cia das Letras)

Entrevista do autor sobre o livro:

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Chama e Fumo

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Amor – chama, e, depois, fumaça…
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa…

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e, depois, fumaça…

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa…

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e, depois, fumaça…

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa…

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder
Amor – chama, e, depois, fumaça…

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?…)
O fumo vem, a chama passa…

A chama queima… O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas… tem de ser…
Amor?… – chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa.

[Manuel Bandeira]

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mais Educação completa 1 ano

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Nos encontramos duas vezes na semana. O dia todo. A cada encontro, a cada troca, volto com uma espécie de renovação interior. Não gosto do termo “trabalho”, ainda que essas oficinas de rádio na escola me exijam uma forte disponibilidade de tempo, elaboração e força. E mesmo sem os “auxílios da causa trabalhista” – (pudera! Até quando os profissionais da educação permanecerão tão desvalorizados?), vejo como reflexo de um ganho e como uma mudança de realidade na minha mente.

De fato, há tanta coisa para descobrir. Esse mundo paralelo não é dividido em dois mundos, senão dois, três, paradoxalmente a outros universos de realidade, tornando-se um inesgotável aprendizado. O bendito clichê “existe vida lá fora” se torna tão claro a cada história, descontentamento, angústia, surpresa, satisfação. Tenho aprendido em cada olhar. Seja triste, revoltado ou alegre. Parece que sempre me são verdadeiros, mesmo que alguns tenham descoberto a mentira há algum tempo.

Eu sempre gostei de cartas muito mais do que outras formas de expressão. Há muitos anos não recebia uma. Eles escrevem sempre. Papéis com palavras simples e desenhos- muitos desenhos coloridos - me retornam de novo a minha infância. Como pode ser tão significativa uma carta para uma criança? As meninas fazem envelopes, do mesmo jeito que eu costumava a fazer. Delicados, alguns meninos recortam formatos de flores em papel. Outros, não escrevem cartas. Muitos não gostam de escrever. Alguns sequer me escreveriam. Outros ainda não aprenderam a ler. Todos gostam de música. Jogam, brigam, brincam e outros cantam. Alguns nem sabem meu nome.



Sem distinção, todos escrevem com os atos, com perguntas inusitadas, com ações que surpreendem. E mesmo na tristeza e na realidade que espera em muitos, passam força.

O projeto visa contemplar escolas periféricas do País com altos índices de reprovação e violência, fazendo com que o aluno permaneça na escola no turno inverso de estudo com acompanhamento de oficinas que lhe auxiliem na autoestima, redução de danos e melhoramento escolar.

O momento de despedida é um pouco doloroso. Retorno no ano que vem. Foi uma escolha ultrapassar o tempo que deveria ficar e que contempla o período de 1 ano. Espero encontrar muitos dos mesmos. Mas tantos outros novos para entender que o plano deu certo e conseguiu ajudar alguns. Espero aprender mais. E continuar refletindo sobre esse estranho e espantoso mundo. Capaz de causar diferentes e diversas sensações ao mesmo tempo. Diante dos meus olhos.


domingo, 30 de outubro de 2011

Depois que eu me chamar Saudade

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Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga,
Para aliviar meus ais.


Se Nelson Cavaquinho estivesse vivo, hoje (29) completaria 101 anos. E, quem sabe, continuaria a fazer sambas tristes. E sem fim.



Documentário de Leon Hirszman, feito em 1969.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O fim

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Por trás dessa pele melanina ilumina
Rastro infiltrante de dor se inclina
Agudo, de repente, se faz presente
Como rasgo de plano
Na mente
E aqui
E só eu sei o quanto dói
E destrói
A pele, o fogo, a palavra,
O toque
Que enfoque
Em tudo que ainda resta
Se resta, lentamente, e só
Que me faz não entender
A força que se tem
Daquilo que nunca se terá
Em mais ninguém.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Nas águas do Uruguai

Imagens e edição: Rodrigo Elste

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Playing For Change

A música sem fronteira



Clássicas canções da música universal cantadas por músicos de rua de diferentes partes do mundo. Originalidade e força. O projeto Playing for Change: Songs around the world além de trazer uma interessante musicalidade, mostra o quanto o universo da arte é inesgotável em diversidade e potencial.

Idealizado pelo engenheiro de som Mark Johnson, a proposta surgiu após encontrar em uma estação de metrô em Nova Iorque, a cena de dois monges na rua cantando e tocando violão com cordas de nylon. De acordo com Johnson, a simplicidade e a beleza encontrada nos artistas de rua causam uma espécie de naturalidade e paixão pela música: “O distanciamento do palco e a liberdade com o sentimento, me causam emoção”, disse.

Passados dez anos após a cena vista na rua, Johnson teve a materialização do projeto de unir artistas de diferentes países, resultando num CD e no documentário Playing for change – Peace Through Music.

O projeto conta com inserções de conhecidos nomes da música, em meio às gravações com os artistas encontrados para o disco. São diversas gravações em diferentes cantos do mundo com um ponto em comum: a música. De negros, brancos, árabes e muçulmanos. Percussionistas brasileiros, africanos, pianistas americanos e violoncentistas europeus. Indígenas e asiáticos, interpretando a mesma canção, em um resultado revigorante.





domingo, 23 de outubro de 2011

Da terra ao fruto

Do fruto ao galho.


sábado, 22 de outubro de 2011

Alguma coisa mudou, de novo, por aqui.

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É. Você entrou no mesmo blog. E mais alguma coisa mudou aqui. Mesmo que pouco. Mas mudou. Aliás, aqueles que freqüentam há mais de um ano este espaço não devem ter se espantado com mudanças. Eu, assim como em outras coisas da minha vida, gosto de renovar.

Isso acontece com as trilhas do programa de rádio que produzo, por exemplo. Em média, mudo após um ano, as músicas que me acompanham diariamente. E gosto. Elas fazem parte do ritmo ao longo do caminho.

Neste blog não é diferente. Há um tempo atrás, após renovar mais uma vez, tinha escrito sobre isso. E este post surge após alguns comentários que recebi de dúvidas frente ao nome e a estética da página. Eu explico.

Criei esse espaço faz alguns bons anos. O endereço do blog é difícil, eu sei. Confesso que se tivesse de começar do zero, começaria. Esses montes de ‘i’s e ‘s’ são vergonhosos atualmente pra mim, afinal soletrar DIIDISS.BLOGSPOT.COM é um tanto chato quando preciso passar o endereço.
- Quantos is?
- Depende. No início são dois. Mas depois tem mais um.
- E “s”?
- Dois no final.
- Soletra de novo. (!)

Mas tem um motivo essa complicação toda: na época eu pensei que estaria criando um login de entrada para o blog e não o nome do mesmo. Final das contas: quando fui ver, o problema já tinha surgido. Sem ambição alguma de permanecer com o blog, deixei por assim mesmo. Mas os anos se passaram. Comecei a usar o "endereço" já feito. E agora já nem penso em trocar.

O tal do diiamante
Taí um dos nomes que eu também acho engraçado. Foi o primeiro nome do blog. E também tem um motivo: no início do ensino médio, escrevi um monólogo para a disciplina de literatura, o qual foi publicado no livro “Os melhores trabalhos que recebi”, organizado pela professora Adriana Lopes. O livro tratava-se de uma compilação de trabalhos de alunos, escolhidos pela professora. E cada aluno possuía uma espécie de codinome, pseudônimo, nomeado por ela. Eu, com minha veia mais lírica e ingênua – na época, - recebi da Adriana a derivação de diiamante. O nome possui significados ambíguos e representativos na época. Mas hoje já não vejo associação com o blog ou comigo.

Sensitivus
Foi o nome de um grupo de estudos em literatura que também tive no ensino médio. Havia um professor de história muito ligado em latim, que sugeriu esse nome para o grupo, referido à palavra sensibilidade. Confesso que sinto esse nome mais semelhante até mesmo ao conteúdo do espaço – o qual, caros leitores, como vocês devem perceber - circula mais especificamente na atualidade, na área da música e da literatura. Mas alguma coisa me deixou um tanto desconfortável com a escolha do nome para o blog. Talvez por me remeter – mais uma vez – há alguns anos atrás, os quais não me representam na totalidade no que penso, no que escrevo e no que sou hoje. Por isso, resolvi mudar. De novo.

E fiquei por algum tempo sem nome [ ].

A estética Banksy
Descobri esse artista britânico há alguns anos. Bem antes de lançarem seu filme ou usarem suas imagens populares em estampas de camisetas ou perfis de facebook [naquela época, obviamente o facebook existia apenas com minoria da população brasileira e eu obviamente nem tinha minha conta na tal rede social].

Lembro da primeira imagem que vi de sua arte. Era uma criança querendo voar com alguns balões nas mãos. Achei singelo e forte aquele stencil. Procurei e descobri muita imagem boa, uma estética que me chama a atenção pela poesia e firmeza que retrata nas ruas. Pelo contraponto. Pela sutileza na mensagem que causa questionamento e reflexão. Adotei Banksy como umas das minhas referências na arte. Ele já esteve presente aqui em outro formato e agora retorna com uma outra imagem que eu gosto. Tenho colecionado, aos poucos, um material dele e de outros artistas que possuem semelhança na estética.

Atualidade com pétalas e lamas
Existem alguns projetos pessoais engavetados e armazenados dentro de mim. Projetados, vagarosamente. Mas repletos de anseios e vontades. E esse blog possui a característica de, além de outros conteúdos gerais e livres, apresentar algumas nuances desses nomes, desejos, expectativas e produções, com o passar do tempo.

Pétala e Lama há algum tempo tem feito parte de reflexões. Uma espécie de enxergar a humanidade meio carne, meio cadáver. Meio pureza, meio podridão. Meio luz, escuridão. Esse paradoxo presente. Um instinto humano, por si só.

Em breve, compartirei parte desse projeto que inicialmente busca retratar sentimentos e linhas humanas através da fotografia e da poesia. Por enquanto, fica o nome. Sem precisões de datas.

Não se espante se encontrar layout's diferentes. Nomes. Cores. A autora permanece a mesma. Com algumas modificações.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

domingo, 16 de outubro de 2011

qui m'empêche d'être libre

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[o silêncio]

Em alguns momentos as palavras fogem.
Cansaço, talvez.

E a música fala, por sons, palavras, sensações.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Estado de Espírito

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Encurvado, olhos presos no seu rio

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Quadro cultural do Programa de TV Nossa Luta, do Sindicato da Alimentação, produzido pelo Coletivo Rede.

Maria Conceição interpreta Cantiga Para um Pequeno Pescador
Letra de Martim César e Música de Alessandro Gonçalves & Sulimar Rass.



Apressado porque a tarde vai cair
Fisga um sonho na pergunta do anzol
Cada isca que ele tira
Veste um riso de alegria
Ao longe, no horizonte, feito brasa, morre o sol.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

To keep the hope

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Come let's bring light
To the night of need.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Conversa com Jarbas Lázare

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Um dos personagens do filme O Liberdade falou um pouco sobre o que mais gosta:
a música e a liberdade


Hoje (6) será lançado o filme O Liberdade, primeiro longa-metragem produzido pela Moviola. O filme foi selecionado pelo edital do ano passado do Procultura e será exibido no Guarany a partir das 20 h.

A programação do Navegando RádioCom recebeu nessa quarta-feira, Jarbas Lázare. Ele, participante do filme juntamente com outros nomes como Avendano Jr., Milton da Costa Alves, Vitor Ramil, Sonia Porto e outros, conversou sobre a representação do samba e do choro em Pelotas e sobre a significância que o bar Liberdade, há quase quatro décadas envolve na tradição da música com o público pelotense.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Só, azul

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Trago minha madrepérola
Abaixo do peito
Carregando, só,
lembranças e certezas.
Sem destino.
Sem cordão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A maldição de pensar

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Leminski: afora exceções corajosas, o século XXI volta a ser, contra ele e sua luta, um século de poetas repetidores

Até a Semana de Arte Moderna de 1922, afirma Paulo Leminski, os poetas brasileiros eram sonâmbulos. Limitavam-se a seguir impulsos e agarrar inspirações, a repetir o já feito. Sem pensar no que faziam, "seguiam os automatismos da tradição herdada, das escolas, dos modismos". O ano de 1922, com Oswald de Andrade e Mário de Andrade no comando, veio acordá-los para o pensamento. Ou, como diz Leminski, para "a maldição de pensar".

Hoje, quase um século depois, são raros os poetas que não se declaram herdeiros do modernismo. Mas será que são mesmo? Uma nova edição de "Ensaios e Anseios Crípticos", coletânea de ensaios de Leminski lançados em dois volumes pela Criar Edições, em 1986 e 2001, que agora ressurge em volume único com o selo da Editora da Unicamp, nos dá uma chance, preciosa, de voltar às suas ideias sempre inquietantes. E, sobretudo, uma oportunidade para pensar o que delas fazem (como as "mastigam") os poetas brasileiros contemporâneos.

Com a Semana de 22, lembra Leminski, a poesia deixa de ser uma resposta e se transforma em uma pergunta. A pergunta é: "que é poesia?" Os poetas deixam de escrever ingenuamente. Deixam de repetir e de macaquear seus autores preferidos. Agarram a própria voz e se arriscam a dizer o que nunca ninguém disse. "Com eles, a linguagem só não basta. Eles têm uma meta. É preciso metalinguagem." A poesia passa a ser reflexão sobre poesia. Antes de escrever, os poetas estudam os próprios vícios. Tomam distância, meditam, medem. Pensam.

Nessa busca de um sentido, isto é, de uma direção, Vinicius de Moraes chegou à audição, João Cabral à visão, Drummond às próprias palavras. Cada um deles escolheu (inventou) seu caminho, negando-se a seguir por estradas já percorridas. Graças ao modernismo de 22, o século XX brasileiro nos deu magníficos poetas. Deu-nos uma grande poesia, talvez insuperável.

Infelizmente, e afora exceções corajosas - penso em Paulo Henriques Britto, em Rogério Luz, em Alberto Martins -, o século XXI volta a ser, contra Leminski e sua luta, um século de repetidores. Repetidores da dicção e das ideias modernistas, não importa - mas repetidores. Poetas bem-comportados, que ostentam suas leituras e seus diplomas, que se veem como intelectuais refinados - mas não pensam. Ou, se pensam, repetem o já pensado, só pensam com as ideias alheias. Adotam esses poetas de hoje, para continuar nas ideias de Leminski, uma "visão utilitária da poesia": a que confere títulos, prestígio, a que alimenta confrarias e elogios, a que cultua os clubes fechados e os bandos, mas não se coloca em risco. Por que não se arrisca? Porque não pensa ou, se pensa, pensa com a cabeça alheia.

Daí a importância de retomar os "Ensaios e Anseios Crípticos". Relê-los não para repetir e reverenciar, mas para meditar e romper. Romper, até mesmo, com o próprio Leminski e suas ideias. Seguir o que ele, artista sempre inquieto, ensinava: fazer arte é inquietar-se, é interrogar-se, é - de uma forma metafórica, mas igualmente sangrenta - "matar-se", para chegar a ser outro. O poeta é sempre um outro ou não é poeta.

Daí, talvez, a importância cada vez mais urgente do silêncio. Em um mundo de ruídos, de falatório, de talk-shows, de conversa interminável, de zoeira e atordoamento, nada melhor do que silenciar. Fazendo alguns ensaios em versos, como as atordoantes "Variações para Silêncio e Iluminação", escreve Leminski, em "O Silêncio de Pitágoras": - "os astros obedecem a uma matemática/ essa matemática é uma música/ não ouvimos a música das estrelas/ porque nossos ouvidos são impuros".

Ouvir o silêncio. Dar valor à escuta delicada do que desconhecemos. Do que não entendemos. Eis, para Leminski, a atitude do poeta. Admite, citando Pascal: "O silêncio desses espaços infinitos me apavora". Sim: escutar (pensar) dá medo. No entanto, sem a travessia do ilegível, sem a coragem de enfrentar o incompreensível, não se faz poesia. Repete-se a poesia alheia, mas fazer não se faz. Propõe Leminski que, antes de escrever, os poetas atravessem o ilegível para só então chegar ao legível. Isto é: a um novo legível e não às velhas cartilhas poéticas, modernistas ou não.

Foi por isso, por exemplo, que Paulo Leminski sempre se bateu contra a chamada "poesia de mimeógrafo", para ele uma "poesia fácil". Poemas curtos, flashes instantâneos, registros-relâmpagos, estalos líricos: isso pode valer para o desabafo pessoal, ou para lustrar o Eu, ou até mesmo como registro histórico, mas poesia, diz Leminski com coragem, não é. Poesia do Eu, ela aponta para tudo aquilo de que ele, esperto, se desvia. Escrever poesia é desviar-se de si. Só assim nos inventamos.

Em um artigo debochado como "O autor, essa ficção", depois de esboçar uma história do aparecimento da noção de Autor, Leminski - como um bom lutador de caratê - nos desloca os ossos, propondo algumas barbaridades bem saudáveis. Que foi Machado de Assis quem escreveu o "Escrivão Isaías Caminha", não Lima Barreto. Que Euclides da Cunha não escreveu uma só linha de "Os Sertões", livro de Coelho Neto. Que o "Macunaíma", de Mário de Andrade, falsamente atribuído a Guilherme de Almeida, na verdade é obra de Plínio Salgado. Piadas tolas? Muito longe disso. Embaralhando os autores, Leminski nos leva a pensar quanto a noção de autoria antecipa, aprisiona e delimita a visão que temos dos livros. "Eis mais um Raduan", dizemos. "Nas livrarias, a nova Adélia." E o nome (a grife) já nos aponta a maneira "correta" de ler.

Assim também fazem os herdeiros declarados do Modernismo de 22, que escrevem ajoelhados, trêmulos, com receio de se desviar da grande (embora recente) tradição. A poesia, diz Leminski, existe para comunicar o incomunicável. Ela não é, em definitivo, um instrumento de comunicação, mas, sim, um instrumento de contaminação. Cita a prece, o despacho, o Salat e o Za-Zen como quatro caminhos de acesso ao incompreensível. As religiões, é claro, nos sugerem muitos outros caminhos. Mostra Leminski: nenhum deles tão livre e tão libertário quanto o poema.

Pensar se torna, de fato, uma maldição. Algo que marca o pensador com um estigma. Algo que o separa dos demais e o expõe à fúria do maldizer. Pensar é singularizar, Leminski nos diz todo o tempo. Pensar não é aprender e repetir, mas desaprender e arriscar. Propõe Leminski que sigamos o lendário haicai que sentencia: "Não sigam as pegadas dos antigos, procurem o que eles procuraram".

sábado, 1 de outubro de 2011

Clutchy Hopkins

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Excêntrico e misterioso. O multi-instrumentista Clutchy Hopkins conquistou minhas veias quando conheci o seu trabalho, no ano passado. Com uma identidade difícil de ser biografada, Clutchy tem um, dois, três pseudônimos. Assina de diferentes maneiras em suas músicas e álbuns. Durante as gravações com outros músicos, recusava-se a contribuir com seu nome, preferindo usar um pseudônimo ou nome nenhum. Identidades diferentes, mas qualidade constante. Na maior parte de sua vida, viveu longe da civilização.

Quando era jovem, aos 20 anos, viajou para o Oriente e ficou sob a tutela de monges Rinzai Zen no Japão, investigando o silêncio e os ritmos do silêncio na música. Estudou na Índia, para dominar e articular os movimentos do corpo e sua relação com o som. E as influências também visitam a percussão e a bateria que são fascinações do músico: Ele foi para Nigéria estudar com o percussionista Oba-lu-Funke. Durante sua estada lá, tornou-se militante político e participou de movimentos para lutar contra o governo opressor e as políticas do Apartheid. Quando retornou aos Estados Unidos, Clutchy usou suas técnicas de gravação para produzir sua própria música e criar seus próprios instrumentos.

Suas gravações vão do início dos anos 70 aos dias atuais, abrangendo um variado espectro de estilos musicais.





quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Canção

O peso do mundo

é o amor.

Sob o fardo

da solidão,

sob o fardo

da insatisfação


o peso

o peso que carregamos

é o amor.


Quem poderia negá-lo?

Em sonhos

nos toca

o corpo,

em pensamentos

constrói

um milagre,

na imaginação

aflige-se

até tornar-se

humano –


sai para fora do coração

ardendo de pureza –

pois o fardo da vida

é o amor,

mas nós carregamos o peso

cansados

e assim temos que descansar

nos braços do amor

finalmente

temos que descansar nos braços

do amor


Nenhum descanso

sem amor,

nenhum sono

sem sonhos

de amor –

quer esteja eu louco ou frio,

obcecado por anjos

ou por máquinas,

o último desejo

é o amor

– não pode ser amargo

não pode ser negado

não pode ser comido

quando negado:


o peso é demasiado


– deve dar-se

sem nada de volta

assim como o pensamento

é dado

na solidão

em toda a excelência

do seu excesso.


Os corpos quentes

brilham juntos

na escuridão,

a mão se move

para o centro

da carne,

a pele treme

na felicidade

e a alma sobe

feliz até o olho –


sim, sim

é isso que

eu queria,

eu sempre quis,

eu sempre quis

voltar

ao corpo

em que nasci.

Uivo - Allen Ginsberg - Pág. 63

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Cinema e Música: A encruzilhada – Crossroads

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Blues e mais blues numa noite azul
Numa tarde blues
Triste

Cada vez mais blues
Pus no blues

Tudo o que supus
Páro por aqui
Senão vai vazar pus deste meu blues.



Dirigido em 1986 por Walter Hill, Crossroads possui uma brilhante trilha sonora produzida e interpretada pelo guitarrista Ry Cooder. Revigorante para quem é apaixonado por música.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Castras

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beijo, medo, ingratidão, peso, flor
fuga, elo, eros, agressão, minha dor
força, pele, plano, silêncio
a tua marca é um incêndio

despedida, enlaço, frenético, cordão
azul, saudade, o verbo e o chão

calma, pisa, rediz, amassa o passado
meu coração, um órgão despedaçado

não vens, não dizes, não és
não julgas, não fazes, não morres,
em ti um poço de mares
de tudo, do mais e mais nada de mim

tão tua que me deixei
tão o resto todo e além
tão nada, tão verbo sem sentido
tão sentido aqui dentro
tão jorrado em meu peito
tão laço sem síncope
tão beijo sem boca

tão boca sem palavra.