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sábado, 7 de junho de 2014

Chove desde que você chegou


É o vinho, ele diz. Não repare. Ou a chuva. Chove desde que você chegou. Telas, janelas, panos, cômodos. Tudo molha, chove a cântaros. Já tivemos um junho assim? Eu não sei. Aqui também chove o tempo todo. Pus um vaso-guarda-gotas sobre o criado-mudo, ao lado do caderno antigo. Recolhi as roupas. Afastei móveis e ruídos. Reli a carta, revi a cena. Era você naquele gesto? Meu passo, tua boca, dez segundos. Era você naquele mundo? Talvez eu te escreva um verso. Talvez eu te queira nua. Talvez eu esqueça o plano. Talvez eu já seja tua. É o vinho, ele diz. Ela não repara. Vontade de te abraçar. Vontade de dançar no teu abraço. Vontade de te beijar. Vontade de demorar no teu beijo. Suspira-se muito por aqui. Por aqui também - ele sussurra. Suspira-se como chove.

[Cântaro - Daniela Delias]

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Fronteiras

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras.

Queria explodi-los
em suspiros, gozo e anátemas
para que de tantos pedaços
brotassem outras centenas.

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras…

mas têm.

(Mauro Iasi)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

'Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.'


Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo. [Drummond]













terça-feira, 7 de agosto de 2012

RádioCom nos Bairros


O Núcleo Popular de Jornalismo esteve presente no Bairro Pestano.



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O estouro



demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém.

risos ou
lágrimas

odiosos 
amantes

estranhos com faces como
cabeças de
tachinhas

exércitos correndo através
de ruas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens.

ou um velho num quarto barato
com uma fotografia de M. Monroe.

há tamanha solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.

pessoas tão cansadas
mutiladas
tanto pelo amor como pelo desamor.

as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras
cara a cara.

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.

estamos com medo.

nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores.

eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios.

ou do terror de uma pessoa 
sofrendo sozinha
num lugar qualquer

intocada
incomunicável

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.

suponho que nunca serão.
não peço para que sejam.

mas às vezes eu penso sobre
isso.

as contas dos rosários balançarão
as nuvens nublarão
e o assassino degolará a criança
como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete.

demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém

mais odiosos que amantes.

as pessoas não são boas umas com as outras.
talvez se elas fossem
nossas mortes não seriam tão tristes.

enquanto isso eu olho para as jovens garotas
talos
flores do acaso.

tem que haver um caminho.

com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda
não pensamos.

quem colocou este cérebro dentro de mim?

ele chora
ele demanda
ele diz que há uma chance.

ele não dirá
"não". 

Charles Bukowski  

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Tenho vinte e cinco anos de sonho.


Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 76.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:

- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 76.

E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.

[À palo seco - Belchior]

sábado, 7 de julho de 2012

Tão down: Pelotas e Cazuza


eu bato contra o muro
duro
esfolo minhas mãos no muro
tento longe o salto e pulo
dou nas paredes do muro
duro
não desisto de forçá-lo
hei de encontrar um furo
por onde ultrapassá-lo.
[Oliveira Silveira]

O que minha cidade tem em comum com o Cazuza é o 7 de Julho. Pelotas nasce há 200 anos atrás. Cazuza morre há 22 anos. Não sei se é apenas essa semelhança. Diante de um momento tão importante, onde a movimentação social parece se renovar e voltar seus olhos ainda mais para a força que se tem nas ruas e na voz daqueles que não se calam... me faz pensar que aquela ousadia que se tinha no Cazuza, aquela irreverência a tanta coisa, aquela paixão descontrolada, a flor da pele - um desespero gostoso e selvagem... - aquele grito, simplesmente o grito; também tem se estampado  em cada bandeira levantada, rosto, brado: sentimentos humanos colocados para fora.

Minha cidade vive um novo momento. Sou testemunha e sujeito neste processo de chama se acendendo. Em uma tradição tão enrustida e tão velha, as ruas estão tomando pessoas, independente de chuva, perseguição e repressão. Pelotas 200 Anos Para Quem? tem mostrado o quanto - quando as forças se unem, as coisas podem acontecer. Criação do Comitê da Memória, Verdade e Justiça coloca Pelotas ainda mais em referência nas apurações aos violentos crimes na ditadura militar.

Novo reitor de uma Universidade Pública eleito democraticamente, após 20 anos, muda muita coisa em um orçamento que consegue ser superior ao da Prefeitura. Coletivos de diversos temas transversais disseminando suas pautas e formando a reflexão e transformação. Mídias alternativas tomando força e começando a finalmente disputar este processo que outrora era tão hegemônico. Festival de Inverno chegando com tudo e colocando Pelotas como uma das capitais de um evento grande multiartístico. 
Hmmmm.. eu ando tão down.
Down de gana, de ternura. Talvez exagerada como Cazuza? Creio que não. 

 Foto: Paulo Granada

Hoje mais uma vez houve um  ato unificado da UFPel , com o apoio de outros movimentos sociais da cidade, em prol da melhoria da educação no País. Gravação do Jornal do Almoço Estadual ao vivo da Princesa do Sul no largo do Mercado... e as pautas da educação - e da cidade - em bandeiras, gritos e megafones do outro lado da cabine da imprensa em plena chuva. O ato mais uma vez foi pacífico, entretanto, infelizmente, a BM não está preparada para isso, e acabou enxergando professores, alunos e técnico-administrativos como "bandidos". A pergunta que não quer calar é: por que os policiais estavam tão armados em uma manifestação pela educação pública? Para que tanta imposição do medo?

Resultado: “cadeia”  por algumas horas para alguns companheiros. Isto é democracia? Temos uma democracia violenta.  Não vamos nos calar.

Essa perseguição é tão estupidamente estranha, mas esperada.
Não sabe o que é ser down.
Nós estamos tão down.

Pelotas comemora seus 200 anos. Parabéns, nossa Satolep.
Por te amá-la, amanhã vamos novamente às ruas.

Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down.

domingo, 17 de junho de 2012

tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas.

> Pontal da Barra em chamas. Veja mais AQUI.


Se aquela mosca morta prestasse e tivesse juizo,
 estaria aqui aproveitando essa catervagem de belezas. 

Apesar de ser um indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não é mau. Oito metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido oito metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons. Sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza, torna-se estável e aumenta. 

Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível, merece pequena consideração. Desci, pois, em paz com Deus e com os homens.



narração/texto extraídos do filme "São Bernado" de Leon Hirszman, pela voz de Othon Bastos. Baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos.

Imagens: Incêndio no Pontal da Barra, em Pelotas, na semana passada.
Video: Caio Mazzilli.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Para encerrar.

Tenha um ótimo final de tarde e uma boa noite.
Nos encontramos amanhã. No mesmo horário. E na mesma estação.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Para as águas do Rio: indo para voltar

.
De repente, subo até ti. Quero ficar perto de tua paisagem tão paradoxal: és areia e pássaros. E és tiros e morte. Ainda que sejas todo esse engodo de cores quentes, és cinzas desmaiados misturados com sangue; e ainda que - quando queres- sejas tão estúpido com tua gente, tão gritante! Ainda assim, derretidamente não deixarei de encontrar o que um dia já encontrei em tuas fontes. Preciso de água. E sobrevoarei entre prédios e redondezas, num piscar de olhos.

Descerei em teus morros, teus barulhos de cachoeiras. Estou indo te encontrar, Rio, porque meu vento me consola, mas preciso ao menos hoje, ao menos nesse instante, do teu cheiro de areia macia, teu sol em minha melanina. Calor por poucas horas. Gávea, Tijuca, Fonte da Saudade. Preciso de tua noite com sorrisos. Quero essa música calma que me faz fechar os olhos. Dançar ao teu passo, somente essa vez.

Me deixa dançar em ti, Rio. Me lava, me tira do gelo que criei em mim mesma. Me dá o sol de manhã para que eu possa merecer o vento quando voltar, tão breve, mais uma vez. E assim, recomeçar.




quinta-feira, 15 de março de 2012

I have to turn my head

.
Maybe then I'll fade away
And not have to face the facts
It's not easy facin' up
When your whole world is black

I have to turn my head
Until my darkness goes.

quinta-feira, 8 de março de 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Naquela mesa - (Sobre viver vivendo)

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A música é uma das sensações que mais sinto. Pela poesia que me envolve. Pelo som que entra dentro do meu corpo como uma catarse cirúrgica. Pelo clamor que há. Pelo seu próprio silêncio, talvez.

Existem algumas que me marcam de forma peculiar. “Naquela mesa” é uma delas. Na década de 70, o compositor e jornalista Sérgio Bittencourt a escreveu em homenagem ao seu pai, o compositor de choro Jacob do Bandolim, que tinha falecido em uma sexta-feira de agosto. Anos depois, seu filho faleceu “do coração”, como o próprio pai. Mas sua canção segue até hoje e é um hino de saudade àqueles que são como pedaços de nós.

Cada vez que ouço, mesmo não tendo passado pela mesma experiência, sinto um misto de lembrança e refrigério. Dor, frenesi e vontade de continuar vivendo. Porque meu encantamento é no quanto a vida é um sonho. Um sonho diário que deve me causar espanto. Uma surpresa excitante. Por ter valor.

Nada morreu para mim ou dentro de mim. Eu só estou sentindo que o coração batendo/o pulso pulsando- ao lado do amor - é o dom mais precioso que eu poderia ter. E que estando perto ou longe, tendo vida ou tendo morte, seja o que for e venha o que vier, importa é que cada amanhecer seja aproveitado como se a noite não fosse chegar.

Quero estar perto de quem amo enquanto é tempo. E em fora de tempo, vou me lembrar que vivi sentindo a vida. Independente do próximo sol aparecer.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Tudo estava mudado. Até o ar.

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No lugar da ventania seca e brutal que outrora me tinha acolhido, soprava uma brisa suave carregada de aromas. Um ruído semelhante ao da água vinha das alturas: era o vento passando nas florestas.

Por fim, o maior espanto foi ouvir o verdadeiro som da água correndo... Vi que tinham feito uma fonte, que a água era abundante e... o que mais me tocou: haviam plantado perto dela uma tília. Símbolo máximo do renascimento.


sábado, 31 de dezembro de 2011

Quero apenas cinco coisas

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Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

[Neruda]

sábado, 24 de dezembro de 2011

De concreto, tenho a vida

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O silêncio. E o balançar das asas da mariposa que voa freneticamente em meia luz. São silhuetas do meu cenário aqui. É difícil, mas excitante pensar, - diante desse silêncio vazio e estridente, nos rumos de tantos caminhos paradoxos e entrelaçados. Gil Scott Heron geme ao piano que grita e dança ao passo da batida – lenta e penetrante: Looking for a way, out of this confusion. Preciso aumentar o som porque me mira e me leva. E porque os zunidos do inseto me entontam. É isso que me faz companhia aqui.

Lá fora, gotas caem em pleno cansativo dezembro. Não faz muito tempo que saí de perto de sirenes, sangue, gente sentada e deitada – a espera. Toquei suas mãos, beijei seu rosto e encostei-me em seu peito. Ele sorriu. Antes, 192 súbito e de repente. E ainda dizem que o solstício é no dia 21 de dezembro. O meu foi hoje. Em minha esfera, sua declinação demorou mais. Atingiu o maior tempo em latitude, me aqueceu e me insultou durante o longo dia todo. Minha órbita parou e eu vi o cair do meu mundo em instantes pelo reflexo de dor, impotência e desespero. Meu sol se foi, trazendo a escuridão que, através do vidro da janela, me observa agora com calma.

O cenário é o silêncio, o zunido, a gota, o som e o lento levantar da cabeça... de olhos fechados. Sempre consegui entender que o silêncio pode estar no meio do mar barulhento. Talvez esse último solstício do ano me fez viver hoje, - o dia que ainda não acabou como marca e banho de água gelada ou fervente que mostra sentido. E nem tudo faz sentido. Importa a vida que hoje foi colocada à prova. Você vai me dizer: ‘ela é colocada todos os dias.' Viver é um desafio, eu sei. Mas hoje eu sei que meu 2011 foi maior do que meu 2010.

Eu não sei como é perder quem mais amamos. Talvez seja uma espécie de perda de si mesmo e de tanto sonho sonhado junto. Há tanta vida lá fora querendo viver; também sei disso. Mas e quando as lembranças trazem a vivência inigualável e profundamente doce de uma relação mútua e significativa? Não sei, de fato, o que é morte e sei que um dia irei conhecê-la. Temo, mas temi hoje mais do que sempre a partida de quem mais amo. A morte de alguém que é a mesma minha. Não existiu, mas doeu.

E precisei de um abraço como dificilmente tanto busquei. De dentro do carro, um amigo, me disse: “viva, simplesmente”. Tirou parte do meu medo como bálsamo derramado em minha voz presa. E me sorriu com lágrimas falando de suas afeiçoes. Veja só como é a vida! Um dia pechamos copos com batidinhas de brindes! e às vésperas de um natal choramos por medo e incerteza.

Talvez a dor me faça mais forte. Talvez o insulto me faça mais corajosa. Talvez o sol só aqueça e a noite só encante. Talvez o susto lembre que a vida é uma só. Talvez a vida acabe logo ou permaneça. Talvez o brinde chegue agora no natal e todos nós estejamos em casa, juntos mais uma vez.

'Obrigada por ainda estar aqui. Me confortas. E me inspiras.'

E o zunido não pára. Mas o piano canta. De concreto, tenho ainda meu sorriso.

Quero estar perto de tudo. Lembrar do que sinto. Dizer que já fui feliz. E que o sol há de brilhar mais uma vez. Quero ficar ao lado, sentindo as batidas como quando segurei suas mãos e pedi pra ficar mais um pouco. 'Obrigada por ficar.' Quero continuar sendo água. Quero o colo. Rivers of my fathers. E os dias para continuar vivendo. De concreto, ainda tenho a vida e a presença de quem amo.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Giovane Oliveira

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Junto ao sangue, somos érnias, cordões e veias.
Te trago comigo como selo em meu peito. Feliz aniversário.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Tudo é teatro

Ótimo para ficar 'oprimido' nessa sexta-feira sem cara de dezembro...

Augusto Boal inspira.



Que cada um diga o que fez, a que veio e por que ficou.
E que cada um tenha a coragem de, não sabendo por que permanece, retirar-se.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mais Educação completa 1 ano

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Nos encontramos duas vezes na semana. O dia todo. A cada encontro, a cada troca, volto com uma espécie de renovação interior. Não gosto do termo “trabalho”, ainda que essas oficinas de rádio na escola me exijam uma forte disponibilidade de tempo, elaboração e força. E mesmo sem os “auxílios da causa trabalhista” – (pudera! Até quando os profissionais da educação permanecerão tão desvalorizados?), vejo como reflexo de um ganho e como uma mudança de realidade na minha mente.

De fato, há tanta coisa para descobrir. Esse mundo paralelo não é dividido em dois mundos, senão dois, três, paradoxalmente a outros universos de realidade, tornando-se um inesgotável aprendizado. O bendito clichê “existe vida lá fora” se torna tão claro a cada história, descontentamento, angústia, surpresa, satisfação. Tenho aprendido em cada olhar. Seja triste, revoltado ou alegre. Parece que sempre me são verdadeiros, mesmo que alguns tenham descoberto a mentira há algum tempo.

Eu sempre gostei de cartas muito mais do que outras formas de expressão. Há muitos anos não recebia uma. Eles escrevem sempre. Papéis com palavras simples e desenhos- muitos desenhos coloridos - me retornam de novo a minha infância. Como pode ser tão significativa uma carta para uma criança? As meninas fazem envelopes, do mesmo jeito que eu costumava a fazer. Delicados, alguns meninos recortam formatos de flores em papel. Outros, não escrevem cartas. Muitos não gostam de escrever. Alguns sequer me escreveriam. Outros ainda não aprenderam a ler. Todos gostam de música. Jogam, brigam, brincam e outros cantam. Alguns nem sabem meu nome.



Sem distinção, todos escrevem com os atos, com perguntas inusitadas, com ações que surpreendem. E mesmo na tristeza e na realidade que espera em muitos, passam força.

O projeto visa contemplar escolas periféricas do País com altos índices de reprovação e violência, fazendo com que o aluno permaneça na escola no turno inverso de estudo com acompanhamento de oficinas que lhe auxiliem na autoestima, redução de danos e melhoramento escolar.

O momento de despedida é um pouco doloroso. Retorno no ano que vem. Foi uma escolha ultrapassar o tempo que deveria ficar e que contempla o período de 1 ano. Espero encontrar muitos dos mesmos. Mas tantos outros novos para entender que o plano deu certo e conseguiu ajudar alguns. Espero aprender mais. E continuar refletindo sobre esse estranho e espantoso mundo. Capaz de causar diferentes e diversas sensações ao mesmo tempo. Diante dos meus olhos.