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sábado, 7 de junho de 2014

Chove desde que você chegou


É o vinho, ele diz. Não repare. Ou a chuva. Chove desde que você chegou. Telas, janelas, panos, cômodos. Tudo molha, chove a cântaros. Já tivemos um junho assim? Eu não sei. Aqui também chove o tempo todo. Pus um vaso-guarda-gotas sobre o criado-mudo, ao lado do caderno antigo. Recolhi as roupas. Afastei móveis e ruídos. Reli a carta, revi a cena. Era você naquele gesto? Meu passo, tua boca, dez segundos. Era você naquele mundo? Talvez eu te escreva um verso. Talvez eu te queira nua. Talvez eu esqueça o plano. Talvez eu já seja tua. É o vinho, ele diz. Ela não repara. Vontade de te abraçar. Vontade de dançar no teu abraço. Vontade de te beijar. Vontade de demorar no teu beijo. Suspira-se muito por aqui. Por aqui também - ele sussurra. Suspira-se como chove.

[Cântaro - Daniela Delias]

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

(des)espero



eu sei, se há,
são resquícios
não manda nada:
jardim de calçada
os simples caminhos
ilineares
foram tuas escolhas
eu sei

não me revelarei:
com dor, fecho a porta
meu nome desfaz
com labareda que resiste
não olha, não diz
continua vão

em ti apaga
a vela acesa ainda
com o céu escuro

não há trovões
não há relâmpagos
dormência é aí
e aqui dentro
pulsante no espelho
de um corpo esquecido

nem sangue
nem fé
nem revolta
nem volta
te trazem
de volta

nem espaços
deste espaço
colocam meu passo
ao passo
do teu passo
num mesmo espaço

eu sei.

nem rastejos, nem flores
hemisférios e poemas
te trazem a mim
e eu passo a bola
para o fim

sem a palavra
que nos une
sem o verbo
que nos chama
sem essa saudade
que eu ainda
sinto

sem idas
sem voltas
sentindo
o sentido
sem ti.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio


É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.

Voz e vento apenas

Das coisas do lá fora


E sozinha supor

Que se estivesses dentro


Essa voz importante e esse vento

Das ramagens de fora



Eu jamais ouviria. Atento

Meu ouvido escutaria

O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.

Porque é melhor sonhar tua rudeza

E sorver reconquista a cada noite

Pensando: amanhã sim, virá.

E o tempo de amanhã será riqueza:

A cada noite, eu Ariana, preparando

Aroma e corpo. E o verso a cada noite

Se fazendo de tua sábia ausência.



Porque tu sabes que é de poesia

Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,

Que a teu lado te amando,

Antes de ser mulher sou inteira poeta.

E que o teu corpo existe porque o meu

Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,

É que move o grande corpo teu



Ainda que tu me vejas extrema e suplicante

Quando amanhece e me dizes adeus.



A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.

E transmuta em palavra

Paixão e veemência



E minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite à Casa que só existo

Para sorver a água da tua boca.



A minha Casa, Dionísio, te lamenta

E manda que eu te pergunte assim de frente:

À uma mulher que canta ensolarada

E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?


Porque te amo

Deverias ao menos te deter

Um instante



Como as pessoas fazem

Quando vêem a petúnia

Ou a chuva de granizo.



Porque te amo

Deveria a teus olhos parecer

Uma outra Ariana



Não essa que te louva



A cada verso

Mas outra


Reverso de sua própria placidez

Escudo e crueldade a cada gesto.



Porque te amo, Dionísio,

é que me faço assim tão simultânea

Madura, adolescente



E por isso talvez

Te aborreças de mim.



Hilda Hilst

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

Wislawa Zymborska

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Fauzi Arap



Eu vou te contar... que você não me conhece, e eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve. A sedução me escraviza a você. Ao fim de tudo, você permanece comigo mas preso ao que eu criei. E não a mim.
E quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa.Você não tem um nome, eu tenho. Você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções.

Mas a mentira da aparência do que eu sou, é a mentira da aparência do que você é. Porque eu, eu não sou o meu nome, e você não é ninguém. O jogo perigoso que eu pratico aqui, ele busca chegar ao limite possível de aproximação, através da aceitação da distância e do reconhecimento dela.

Entre eu e você existe a noticia que nos separa. Eu me dispo da noticia e a minha nudez parada te denuncia e te espelha. Eu me delato. Tu me relatas. Eu nos acuso e confesso por nós.

Assim me livro das palavras, com as quais você me veste.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Procura-se


Tive contato com a poesia de Martim César há alguns anos. Mais recentemente, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais de sua obra, através da edição do Poesia No Bar, que se deslocou a Jaguarão.
Publico aqui uma poesia deste autor. Uma busca incansável pela poesia viva ou morta. Respirá-la talvez seja o que esteja nos faltando cada vez mais. Procura-se a poesia, procura-se.


Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um amor adolescente,
Ingênuo. Descobrindo e descobrindo-se.
Como o primeiro olhar de cumplicidade
E o primeiro beijo. E a primeira lágrima de dor.
(E não existe outro amor mais delirante).

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia contra a opressão,
Poesia como um rio sem represas,
Poesia libertária, abrindo grades,
Poesia devolvendo o céu aos pássaros,
Poesia sem preço, nem limites,
Poesia como lenitivo, como bálsamo,
Poesia contra as feridas deste tempo,
Poesia contra quem nos fere,
Poesia para quem nos fere,
Poesia necessária, poesia imprescindível
Como a água que bebemos.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia de Neruda, eterna como as geleiras da sua terra,
Alta como a cordilheira que moldou o seu canto inigualável,
Livre como o condor, senhor dos ares ameríndios.
Poesia com gosto de vinho, poesia cor de sangue,
Poesia como o mar, belo e temível. Temivelmente belo.
Poesia de Drummond, cortante como um punhal,
Feita do ferro das suas minas não tão gerais,
Poesia denunciadora como a Rosa de Hiroshima,
Poesia gritando feito uma menina do Vietnam,
Nua. Queimada de Napalm, gritando...
Ardendo em chamas dentro de nós.
 
Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um relâmpago na noite escura,
Como o tímpano adivinhando o trovão
Que ainda não veio, mas virá.
Poesia como uma flor em meio ao charco,
Como as gotas de orvalho sobre a relva,
Como uma carta de amor no bolso de um soldado
Que foi morto por outro soldado que
também foi morto,
Ambos assassinados por alguém que
nunca foi à guerra.
Poesia épica como a música de Serrat
Onde Dom Quixote ainda enfrenta os cataventos,
E García Lorca ainda está vivo,
Zombando dos generais que o fuzilaram.
Como o exemplo de uma mulher por trás das barricadas,
Defendendo a frágil democracia de sua
imensa Espanha
E gritando: No pasarán!... No pasarán!... No pasarán!


Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um amor adulto, aparando arestas,
Buscando completar um estranho quebra-cabeças
Onde sempre está faltando alguma peça.
(E não existe outro amor mais desafiante).
Poesia como as mãos de Víctor Jara, tocando,
Mutiladas mas ainda ali, tocando
Para todos os opressores deste mundo, tocando
Para os abutres disfarçados de defensores da liberdade,
Pois cada Pinochet é somente um títere,
Perigoso títere de uma ideologia onde o lucro
É o único Deus e a águia é o símbolo do poder.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como o espetáculo indescritível das estrelas
Numa noite clara, longe das cidades de neon.
Poesia como as mãos de um escultor
Moldando o barro, forjando o tempo.
Poesia como o sutil traço de um pintor
Transformando a matéria em sentimentos.
Poesia desesperada como um suicídio,
Como a dor das mães-avós da praça de maio,
Lutando contra o silêncio e o esquecimento.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como flecha contra mísseis e satélites.
Poesia como o pedaço de céu visto entre as grades
De todos os cárceres do planeta.
Poesia como a ausência das pessoas que perdemos,
Mas que continuarão em nós, enquanto vivermos.
Poesia como um barco regressando.
Poesia incoerente e bela. Incoerentemente bela.
Como o pranto solitário de Carlitos,
Como a ternura inquebrantável de Guevara.
Poesia necessária, poesia imprescindível
Como o ar que respiramos.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como o último índio de uma raça,
Exposto aos brancos como um animal exótico.
Poesia como o grito igualitário de Zumbi
Sem entender porque a cor difere os homens.
Poesia como o coração de Chico Mendes
Sangrando sobre o verde da amazônia.
Poesia como os cem anos de solidão
A que estão condenadas todas as Macondos
Deste hemisfério culpado por ser inocente.

Procura-se a poesia, viva ou morta, procura-se.
Poesia como um amor maduro,
Bebendo a última luz do entardecer.
(E não existe outro amor mais verdadeiro).
Poesia necessária, poesia imprescindível
Como o sol de cada dia.
Poesia como alguém que dá sua vida
Por um ideal, por um amor, por um amigo,
Poesia como alguém que dá sua vida por alguém,
Sem importar-se, que, afinal, está entregando
A sua mais bela e - quem sabe -
Única, necessária e imprescindível poesia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

insônia


escrever-te
 é aliviar esse clamor
ardente chama
escarlate cor


que range
tua falta tão presente
cáspide
encarecidamente


neste corpo
saudoso
dessa tua boca
agressiva
infetuosa
 que mata.


vem
em tua gravidade furiosa
tua cólera voraz
teu ânimo insano

dentro
em pranto


e banha meus ossos
como se eu
não existisse
ao amanhecer.


nina teu jeito de menino
com teus negros cabelos
-virgens
enrolados em meus dedos
-cravados
que correm
em tua face


e escrevem poesias
invisíveis
em tua cabeça

fixa meu par de pernas
em tua cintura
essa pulsante tremura
de ouvir uma canção
e te imaginar
em uma cena
com dois amantes

desesperados.

são essas lembranças
sufocadas e irreais

que corroem

são esses urros
costas salivadas

que rasgam

é essa tua pele
salgada
e é teu não explicar

que arde

é a ácida força
é essa ousadia
de me fazer tua odre
ao menos por segundos

que me faz cair em mim

e querer te cortar
em pedaços
e enviar para o espaço

a qualquer planeta
que não me exista

a qualquer mar
que não chegue
até mim
a qualquer caminho
sem fim

a qualquer árvore
sem fruto
a qualquer mundo
sem absurdo

a qualquer corpo
que
não
seja
mais
o meu.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

oração

.
sossego:

me cegue
do seco
me sane
em cima
do sol
me sirva
sua
sombra
me sare
somente
do mal.

alento:

alimenta
leva
além
lava

minhas
lamas
limpa

até a chama

ainda acesa
atenta
inflama
e clama
aqui dentro.


segunda-feira, 26 de março de 2012

É pelo vão dos momentos de solidão

.
Prestigio aqui dois poemas de Marilia Kosby, antropóloga que conheci em entrevista no meu programa, através da Radiocom.

Escolhidos a dedo, dois poemas que, de alguma maneira, penetraram em mim, especialmente no dia de hoje. Um de boas-vindas. Outro de despedida.


Alecrim

Sei lá eu
se pitangueira tem flor!
Venho tentando rimar
pasto com teus olhos
Como se fossem eles
o motivo de eu ficar aqui imaginando
as palavras na tua língua

Essa tapera que eu era
Aquela geada que eu velava
meio-dia adentro
Era tudo.
Eu tava virada
no que me faltava

Quando tu chegaste
batendo palmas no temporal
só dei pelo que não tinhas
A cor, o perfume,
o calor
as décadas

Das tuas posses
me permites o que desejas perder.
Mas o que mais tu tens
- que essa luz continua acesa?

Sopra nos meus quatro cantos
uma cançãozinha
de lá de onde eu venho:
"Alecrim
Alecrim dourado
Que nasceu no mato
Sem ser semeado"
.


Lugar comum

Por essa porta
que bateste ao ir embora
Pelas linhas tortas
que traçaste ao te perderes

É pelo vão dos momentos de solidão
que eu entro na tua vida
Com a impressão de que estou saindo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Palavra (En)cantada

.
Documentário dirigido por Helena Solberg, discute a relação entre música e poesia no Brasil

Em um país com uma forte cultura oral como o Brasil, a música popular pode ser a grande ponte para a poesia e a literatura.
Palavra (En)cantada conta com a participação de Adriana Calcanhotto, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, BNegão, Chico Buarque, Ferréz, Jorge Mautner, José Celso Martinez Correa, José Miguel Wisnik, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Lenine, Luiz Tatit, Maria Bethânia, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, Tom Zé e Zélia Duncan.

A maioria das entrevistas foi feita em casa e alguns deles cantaram e tocaram canções especialmente para o documentário, fato que realça a atmosfera intimista do longa-metragem.



Conheça mais AQUI.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Por Dentro

[canção]

Estou voltando eu prometo
deixa a poeira passar
o vento vai levar tudo
estou voltando de lá

prometo que chego logo
deixa essa onda quebrar
a onda que salga a pele
e os poros que teimam em gritar

já chego de volta ao começo
de novo pra recomeçar
remonto a estrutura do vento
remota estátua de sal
me espera já chego, eu prometo

trazendo a saudade de lá
nos poros que ardem por dentro
ventando eu já volto de lá
rasgada em verdade eu prometo
que volto quando eu chegar.

[Composição minha em parceria com Janete Flores para o disco Flor de Lótus]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

;

.
pára; deixa teu suor se confundir
com a água da chuva
teu corpo fatigado
em pauladas tórpes
precisa sentir
carícias em suas curvas

fica, deixa essa água cair
gelando teus ombros
escorrendo em pingos teus cabelos
jogando pra baixo do inferno
teus escombros
tapeando teus desesperos!

vai, a mágoa vai passar
palavras duras
e não's frios sairão pele a fora
teus pêlos sentirão calafrios:
é a água levando
teus pensamentos doentios

todos fecharam suas janelas
- observam, distantes, pelo vidro
... mas espinhos são levados pelo vento
como suas vontades, impecilhos
vazios, sem tempo e desafio

tira, chinelos ficam lá!
te entrega mais a essa chuva:
ela é de graça
e nao traz desgraça
não a desfaça!

pois permanece santa
quando cai com calma
pura e gelada, desce agora
em teus poros, tua alma

tua fala em tua garganta tranca
grita! ao menos uma vez essa desordem

lamenta então ao rio que passeia em tua área
tuas dores aliviarão em água.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Quero apenas cinco coisas

.
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

[Neruda]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Pusilânimo

.
Luz esmorecida diante de tudo
Somos nós, de novo, cego e mudo
O castigo que traz brado de alívios
Somos nós, como nunca, em homicídios.

Reviveremos pois, um dia,
ineditamente, um a um e para o outro
Se acaso me enxergares diante de luz
Como tua, em teu corpo
Resplandecendo marcas de ânimo
Devagarinho
Limpando cada pranto.

É assim que te vejo
E é assim que me entrego
Por trás da luz que desaparece aos poucos
Tua presença ainda corta meus medos tolos
Estaca o sangue, inunda a alma
Acalma

E jorra em mim teus pedaços
Antepassados e presentes.
Somos nós, e eu sozinha
Em sonhos quentes.

Ousada, te lanço manifestos, te coloco em uma cruz
Teus laços tão vivos: teu peito quem conduz
E assim, como quem morre,
desligo o abajur, visto o capuz
E me apago, violentamente,
conforme essa luz.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O fim

.
Por trás dessa pele melanina ilumina
Rastro infiltrante de dor se inclina
Agudo, de repente, se faz presente
Como rasgo de plano
Na mente
E aqui
E só eu sei o quanto dói
E destrói
A pele, o fogo, a palavra,
O toque
Que enfoque
Em tudo que ainda resta
Se resta, lentamente, e só
Que me faz não entender
A força que se tem
Daquilo que nunca se terá
Em mais ninguém.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Canção

O peso do mundo

é o amor.

Sob o fardo

da solidão,

sob o fardo

da insatisfação


o peso

o peso que carregamos

é o amor.


Quem poderia negá-lo?

Em sonhos

nos toca

o corpo,

em pensamentos

constrói

um milagre,

na imaginação

aflige-se

até tornar-se

humano –


sai para fora do coração

ardendo de pureza –

pois o fardo da vida

é o amor,

mas nós carregamos o peso

cansados

e assim temos que descansar

nos braços do amor

finalmente

temos que descansar nos braços

do amor


Nenhum descanso

sem amor,

nenhum sono

sem sonhos

de amor –

quer esteja eu louco ou frio,

obcecado por anjos

ou por máquinas,

o último desejo

é o amor

– não pode ser amargo

não pode ser negado

não pode ser comido

quando negado:


o peso é demasiado


– deve dar-se

sem nada de volta

assim como o pensamento

é dado

na solidão

em toda a excelência

do seu excesso.


Os corpos quentes

brilham juntos

na escuridão,

a mão se move

para o centro

da carne,

a pele treme

na felicidade

e a alma sobe

feliz até o olho –


sim, sim

é isso que

eu queria,

eu sempre quis,

eu sempre quis

voltar

ao corpo

em que nasci.

Uivo - Allen Ginsberg - Pág. 63

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Castras

.
beijo, medo, ingratidão, peso, flor
fuga, elo, eros, agressão, minha dor
força, pele, plano, silêncio
a tua marca é um incêndio

despedida, enlaço, frenético, cordão
azul, saudade, o verbo e o chão

calma, pisa, rediz, amassa o passado
meu coração, um órgão despedaçado

não vens, não dizes, não és
não julgas, não fazes, não morres,
em ti um poço de mares
de tudo, do mais e mais nada de mim

tão tua que me deixei
tão o resto todo e além
tão nada, tão verbo sem sentido
tão sentido aqui dentro
tão jorrado em meu peito
tão laço sem síncope
tão beijo sem boca

tão boca sem palavra.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Corpo de água

.
[Foto: Carlos Alves]

Vens do extremo entre oceanos
Próximos a desertos sem ti.
Praga entre as espécies és considerada
Mas tens mirra em tuas pétalas
Rastros castos de um sul distante e negro
E cheiro verde da mata
Que encontra a primavera.

Espécie humana e invasora te descrevem
E és tão simples quanto tuas cores
Tão leve quanto tua insipidez
Tão vazia de deserto
Quanto vazio é o deserto

És água como o oceano.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Canto de baixo

.
Em cada galho perdido nesse chão
Junto teus pedaços
Como encontros caídos de árvore
Que outrora assistiram pássaros

E hoje sentem cheiros de um mundo
Vazio desmoronado
Gritando canções tristes que cortam
E sangram medo encarcerado

E o movimento cinza do cair da noite
Lança o olhar queixoso e oprimido
Que passa por essas folhas secas
Que seguro e quebro uma a uma
Despedaçadas como tempestade em ninho

E sinto frio.

E por cada pedra que esbarro
Pequena, leve ou não
Cato o som do que não vivi
E atiro pra longe do chão.

Mas pedras não são pássaros.

E cada passo que dou
Embalsa aquilo que gelou
E lança de novo tua sede
E me traz de novo tua força
Como cura da minha ferida aberta
Como pós de areia
Que entrelaçam o acorde de um violão

E me entregam de novo a mim
E se perdem de novo em mim
E me lançam de novo por fim

Musicando o poema que não sai
Exprimindo o dia que não vem
Consumindo na alma o que não foi dito
Aclamando no peito o que não foi feito

Por sentir saudade.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Amor em flor

.
Me Pétala com calma
Me Girassol
E mira minha Íris
Com palavras que gemem.

Sente-me Gloriosa pelo simples
Toca-me tua Gravata de alma
Que te gravo como Jacinto
Teus beijos
Amarilis ainda mais
Quando beijam-me de repente

E sem medo – contra o tempo
Em sons e imagens de um chão Rosa
Com minha boca florescendo na tua
Sensível como Alpinea Vermelha
Numa tarde Blue.

E distante do deserto da Boca de Leão
Próximo aos belos Copos de Leite africanos
Como Cravo no pensamento tua pele
Em forma de Estatícia com aroma
De lavanda do mar

No tropicalismo de uma Estrelícia
Que me arrebata quente a ti
E me derrete em Frésia
Como um dia de frenesi
Do nosso encontro
Que arde.

Mas trago Gardênia como gratidão
Rego Lírio nos olhos que sentem vento
E te faço provocações Narciso
Me enlaçando suavemente como Tango
Simples como Tulipas de lembranças
Que me levam de volta ao campo.