Ainda não nos encontramos, Pedro. Mas hoje, acordei mais feliz por saber que foi o dia da tua chegada. E sorri ao ver teu rostinho. Ao te ver nos braços dos teus pais.
Daqui uns anos, minhas cartas serão lidas. E eu irei te lembrar do que estou sentindo.
Juninho Afram é, sem dúvida alguma, um dos guitarristas mais autênticos que eu pude conhecer. Não apenas por ser considerado por tantas vezes o melhor do Brasil e um dos melhores do mundo, mas por toda sua representação. Ouço desde criança (criança mesmo) pela influência que a Oficina G3 sempre me causou. Assisti ao vivo a banda umas cinco vezes. E é sempre uma grande boa surpresa. As fases, o amadurecimento, a firmeza, a sonoridade, a luz e principalmente a ousadia no “experimentar” em cada trabalho novo.
Tudo isso me faz relembrar algo que, para mim, significa bastante: a primeira entrevista que fiz na vida foi com a banda. Aquelas tentativas que dão muito certo e que a gente jamais se arrepende. Primeiro mês de faculdade. Pelotas. Março de 2006. A simplicidade de cada um. A sintonia de ideias. A livre segurança que me passaram. A diversidade de cada integrante. E uma "palhinha" no meio da conversa para trazer pra sempre comigo, o som frenético da Tagima do Juninho.
[Assim que eu conseguir resgatar o material e passar para mp3, postarei aqui a entrevista, na íntegra. Por enquanto, vai um solo clássico - do dvd O Tempo- que retrata um pouco o porquê do meu respeito]:
A maioria do meu país optou pela continuação de um governo – pesem as falhas – mas que entre os anos de 2003 e 2008, somou 21 milhões de brasileiros que deixaram a miséria e outros 32 milhões que ascenderam à classe média.
Meu país reconheceu o cuidado mais humano que essa terra vivenciou nos últimos anos e resolveu que é preferível continuar aumentando o sistema educacional público, onde, muitos jovens tiveram a oportunidade de cursar uma universidade particular. Eu sou fruto dessa geração.
E sim, reconheço muitas contradições nas políticas dos últimos tempos. Eu, como declaradora da esquerda, dos movimentos populares sociais e da luta contra a “dominação hegemônica” , sei do quanto ainda precisamos avançar. Não só em índices. Mas em qualidades. Conceitos. Afirmações. Lugares de falas. Reconhecimentos. Prioridades. Humanismos. E principalmente construções sociais.
Torço para que o meu país diverso, bonito e guerreiro, o meu Brasil que, nas palavras de Chico Buarque, “não mais falou fino com Washington, nem grosso com a Bolívia”, continue sendo reconhecido no exterior como terra de pessoas simples, mas orgulhosas de uma realidade já diferente de décadas atrás. E que, acima de tudo, seja reconhecido pela sua própria gente, como um País forte, que não perdeu a esperança. E que precisa voar.
Impossível não destacar “Novo tempo”. Canção que me enche de força. E própria para o momento.
Composição: Ivan Lins / Vitor Martins
No novo tempo, apesar dos castigos Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer. No novo tempo, apesar dos perigos Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver.
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança Seja sempre um caminho que se deixa de herança No novo tempo, apesar dos castigos De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer.
No novo tempo, apesar dos perigos De todos os pecados, de todos enganos, estamos marcados Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver No novo tempo, apesar dos castigos Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer.
Intimamente sei que não me iludo. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres, carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota!
A passagem dos séculos me assombra. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho, e a mim pergunto, na vertigem: — Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.
(...)
Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme. Eu, somente eu, com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo, enquanto o horror me corta a fala, O aspecto sepulcral da austera sala E a impassibilidade da mobília.
Meu coração, como um cristal, Se quebre o termômetro, negue minha febre, Torne-se gelo o sangue que me abrasa, E eu me converta na cegonha triste Que das ruínas duma casa assiste Ao desmoronamento de outra casa!
Ao terminar este sentido poema Onde vazei a minha dor suprema Tenho os olhos em lágrimas imersos... Rola-me na cabeça o cérebro oco. Por ventura, meu Deus, estarei louco?! Daqui por diante não farei mais versos.
Um dos movimentos que mais me chama a atenção na história da cultura brasileira, é o manguebeat. Surgido em Recife, na década de 90, com a particularidade da música regionalista somada ao maracatu, rock psicodélico, funk e cositas mas. Um movimento que vai além da música, pois traz na sua conjuntura, um cunho social contestador, produzindo uma nova concepção do movimento cultural no Brasil. Algo no melhor sentido do "fora do eixo".
Dentre diversas bandas que se destacaram, (em breve falarei com mais detalhes e contextualizações sobre o movimento) a partir de Chico Science, não resisto em não falar da visceral Mundo Livre S/A.
São vários os aspectos positivos que encontro na banda. A contestação social. A valorização regional, ainda que não linear, pois vem carregada de diversidades, o que torna o mangue muito interessante. A musicalidade peculiar. E a poesia. Atraente.
Gosto desse lirismo marginal. Essa ousadia simples nos versos. Traz "realidade." Essa música "Meu esquema" é um dos exemplos.
Espaço dedicado ao compartilhamento de arte, debates, ideias e manifestações humanas.
Que a sensibilidade nos mostre a morte que temos feito de nós, humanos que somos, caçadores de esconderijos.
Que a sensibilidade nos aproxime, do nosso próprio ser, antes de mais nada.
... eu imaginei quando por trás de mim o mundo acontecia. Tão perto. Íntimo. E frio como gelo que não derrete.
As folhas estavam agitadas pelo frio seco e ensinavam um novo caminho distraído, mas inquieto. Quis voltar e partir para o inverso daquilo que planejei. Mas os planos já estavam feitos. Segui pela sonoridade que o coração insistia em lembrar. Lembrei do mundo real. Sangrento, solitário, barulhento e indiferente.
Pai, até quando vamos continuar nos enganando? As cenas estão distantes. Estragamos tudo. Deixamos para depois o que deveríamos ter vencido inicialmente. Perdemos por nossa causa. Intercalamos as atividades, jogamos para o mar a sensibilidade do nosso corpo, do nosso ser... E continuamos buscando nos encontrar. No vão da nossa alma.